22.4.10

z)




(Esse texto está incluído na série de contos ficcionais porque, mesmo sendo um texto crítico, o país de que ele fala só pode ser uma ficção.)





Sarney e a lógica da chaleira


Em 1925, Freud publicou um texto de grande importância para a formação da teoria psicanalítica, "A Denegação" ( Die Verneinung, em alemão). O texto freudiano sobre a Verneinung introduz à consideração teórica uma outra forma da negação: um ‘não’ que supõe uma afirmação. 

Neste caso, a denegação seria uma forma de trazer à tona o que está escondido, inconsciente, sem que seja necessário a aceitação e consciência do que não se sabe. 

Essa negação que implica uma afirmação é apresentada por Freud mais tarde numa anedota sobre uma mulher que nega de três maneiras ter quebrado uma chaleira emprestada:

ela diz:
- “ a chaleira já estava quebrada quando eu peguei”
- “ eu não peguei a chaleira emprestada”
- “ a chaleira não está quebrada”

A soma das três negações super-impostas negam não só sua culpa no caso da chaleira quebrada, como obviamente também negam umas às outras, já que o conjunto das três rompe com os princípios mais básicos da lógica aristotélica (a chaleira não pode ‘já estar quebrada quando foi emprestada’ e ‘não estar quebrada’ ao mesmo tempo, por exemplo).

A combinação dessas três negações aponta para uma afirmação, justamente aquilo que é objetivamente negado, mas que é implicado afirmativamente no enunciado: uma chaleira foi devolvida quebrada.

Assim, carregada pela denegação - no rastro da rasura, como Jacques Lacan viria muito mais tarde a descrever - encontra-se a presença indestrutível de um sim muito mais profundo: um ‘sim’ que, para além da imaginária idéia de concordância, encontra no peso da sua negação a própria consistência do termo negado.

Freud escreve que “negar algo em um julgamento é, no fundo, dizer: ‘Isto é algo que eu preferira reprimir’”. Em termos de sintaxe isso é bastante perceptível. Peguemos um dos dez mandamentos: “Não matarás”. A palavra ‘não’ não substitui a palavra “matarás” - ao contrário: sem a palavra ‘não’, não se escreveria a palavra ‘matarás’. A própria negação do pecado o institui, digamos assim.

Essa relação dialética e estrutural entre a constituição do que é negado e sua negação nos permite entender mecanismos que se estendem para além do indivíduo e sua psiquê.

Nos últimos meses, nas diversas vezes em que o presidente do Senado, José Sarney, subiu ao palanque para se defender das acusações feitas a ele a respeito de seu envolvimento em esquemas de contratação de familiares para cargos públicos, seu envolvimento em atos de nomeação e reajuste salarial realizados de forma secreta durante a sua presidência, formou-se lentamente um quadro bastante similar ao do exemplo citado por Freud.

No curso de um pouco mais de um mês, José Sarney respondeu da seguinte maneira às acusações:

ele diz:
- “os atos secretos já estavam instituídos quando eu cheguei”
- “eu não sou responsável pela cozinha do Senado”
- “as acusações são todas falsas”

Assim como no exemplo freudiano, encontramos aqui a estrutura:
- x já estava assim antes de mim
- eu não peguei x
- x não está quebrado.

É seguindo a linha de meu mestre, o filósofo sloveno Slavoj Žižek, que coloco essa homologia entre a situação da chaleira e a defesa de Sarney. Žižek vem há muito tempo analisando e escrevendo sobre política e filosofia levando em conta a hipótese psicanalítica de que há inconsciente.

Escrevendo à respeito do posicionamento americano em relação à guerra do Iraque, ele diz:

“Em Março de 2003, Rumsfeld praticou um pouco de filosofia amadora a respeito da relação entre o conhecido e o desconhecido: ‘Existem conhecimentos conhecidos. Essas são as coisas que nós sabemos que sabemos. Existem desconhecimentos conhecidos. Isso é, existem coisas que nós sabemos que não sabemos. Mas também existem desconhecimentos desconhecidos. Existem coisas que nós não sabemos que não sabemos.’ O que ele esqueceu de adicionar foi o quarto e crucial termo: os “conhecimentos desconhecidos”, as coisas que nós não sabemos que sabemos - que é, precisamente, o inconsciente freudiano, o ‘conhecimento que não conhece a si mesmo’, como Lacan costumava dizer.

Se Rumsfeld pensa que os maiores perigos no confronto com o Iraque foram os ‘desconhecimentos desconhecidos’, isso é, as ameaças de Saddam cuja natureza nós não podemos nem mesmo suspeitar, então o escândalo [das torturas aplicadas pelos americanos] em Abu Ghraib mostra que os maiores perigos residem nos ‘conhecimentos desconhecidos’ - as crenças denegadas [disavowed beliefs], suposições e práticas obscenas que nós fingimos não ter conhecimento, mesmo sendo o que forma o pano de fundo dos nossos valores públicos.”
(Žižek, S. http://www.lacan.com/Žižekrumsfeld.htm )


Seguindo o pensamento de Freud - mas também o de Marx, com seu conceito de ideologia - Žižek posiciona o inconsciente entre o público e o privado, deixando em aberto para nós a possibilidade de enxergar aqui em nossa própria problemática esse ‘saber que não sabe a si mesmo’, mas que nem por isso deixa de organizar tanto o campo social quanto o individual.

José Sarney - num país como o Brasil, onde as estatísticas encontram um familiarmente estranho Iraque entranhado por dentro do seu próprio território - poderia certamente fazer às vezes do nosso próprio Donald Rumsfeld.

Mas enquanto Rumsfeld esqueceu-se de uma permuta dos termos sobre o qual filosofava, com Sarney o caso é o contrário: Sarney não deixou de falar - falou tanto que voltou a deixar claro a coisa mesma sobre a qual queria calar.

Na verdade, Sarney foi além da chaleira. Numa proposição adicional - que pode ser retirada da sua recente (21/08/09 ) entrevista ao canal televisivo Globo News - após se defender da acusação de que uma familiar sua teria sido nomeada para um cargo parlamentar, dizendo que ela foi sim nomeada - deixando o ato de nepotismo evidente -, mas que não chegou a assumir o cargo, ele completou:

“como se pode acusar uma coisa que não existe?”

É importante aqui relacionar esse ‘não existe’ com a idéia de denegação. Para além de uma simples denegação, onde as negativas combinadas apontam para a afirmação daquilo que se quer negar, essa quarta negação apresentada por Sarney - não tanto uma negação dos predicados da chaleira, mas dá própria existência da chaleira - aponta para uma estrutura um pouco diferente.

Novamente - reforçando tanto a comparação com Rumsfeld quanto a dívida à Žižek - gostaria de retornar aos comentários do filósofo a respeito de outro aspecto da ‘guerra ao terror’: o comentário do governo americano confirmando as suspeitas de tortura em Guantanamo publicamente.

Respondendo às fotos e vídeos trazidos ao público que mostravam soldados americanos humilhando e torturando prisioneiros, o governo respondeu em diversas fontes com um discurso afirmativo - Sim, a tortura acontece - Seguido por uma série de modalidades de argumentação liberal para criar uma fraseologia democrática por cima dessa primeira - e obscena - afirmação: A tortura acontece, mas só com aqueles ‘que foram perdidos pelas bombas’, ou argumentando ‘que é melhor pelo menos falar a respeito’, etc.

Žižek, que possui um extenso trabalho relacionado ao estudo da ideologia e seus mecanismos de funcionamento, reagiu ao posicionamento americano com a seguinte resposta: Se é só tortura o que se passa, método esse comum e sabido pelo povo desde sempre, por que é que agora estão admitindo?

O filósofo compara essa situação a de um marido que conta para a esposa que está tendo um caso, um affair passageiro. A mulher se indigna: Se é só um caso, porque ele está contando pra ela?

A relação entre as duas situações torna evidente que o ato de tornar público nunca é um ato ‘neutro’, sem investimento. Tornar público implica uma posição diferente de manter algo no terreno da clandestinidade, principalmente para aquilo que habita, por definição, na distância entre a letra da Lei (o que está escrito que devemos fazer) e a realidade (aquele espaço em que o desvio é tolerado, conquanto seu conhecimento não seja direto ou oficial).

Aqui aparece o ‘para além da chaleira’ de Sarney: Esse argumento apresentado na entrevista, admitindo o nepotismo, mas ao mesmo tempo o colocando como desculpável, já que o cargo não foi assumido, demanda um laço perigoso entre o oficial e o oficioso.

Ainda com a chaleira como exemplo, seria com estranheza que se receberia num tribunal o argumento contra ou a favor a existência do objeto: A chaleira já estava quebrada quando eu peguei, eu nem peguei a chaleira emprestada, a chaleira também não estava quebrada e - além do mais - a chaleira não existe.

Mas o importante é que a estranheza não vem do puro absurdo da quarta proposição, mas de como, de alguma forma, ela de fato é o único modo de combinar as três anteriores. Só de uma chaleira que não existe poderia se predicar sem contradição as três outras negações. Mas qual é o status de uma chaleira que não existe, e no entanto é objeto de um julgamento?

O que vem à tona com o argumento de Sarney obviamente não é a negação da existência dos atos secretos, ou das nomeações, mas a negação da diferença entre a esfera oficial e a esfera das relações ilegítimas da política nacional. Na política, coisas que ‘não existem’ podem ter efeitos. E ao propor que as acusações se dirijam a alguma coisa inexistente - e que, no entanto, existam as acusações - Sarney inclui no discurso manifesto a negação daquilo no qual ele se baseia.

Mas nós aprendemos com Freud que tipo de negação é essa.

Negar seu envolvimento com uma rede de corrupção é fazer parte da tradição retórica da política no Brasil, mas negar a rede ela mesma é trazê-la em definitivo para o primeiro plano.

Quando Sarney pergunta como pode alguma coisa que não aconteceu servir de base para acusação, ele está questionando como que ‘aquilo que não acontece’, justamente a base subterrânea da política no país, pôde vazar e ter consequências no registro oficial da lei.

Desde o primeiro discurso de Roberto Jefferson na CPI do Mensalão, quando a abertura para o público da rede de corrupção que envolvia todo o Senado serviu para Jefferson como base de sua defesa, a diferença entre a lei e seu obverso obsceno tem se estreitado.

José Sarney, o presidente do Senado, em seus pronunciamentos recentes, encenou de forma intocável um outro exemplo desta mesma lógica. E essa torção da denegação, essa repetida inclusão pelo avesso da corrupção no discurso político - buscando que a máxima “a corrupção está por toda parte” redima aqueles que a enunciam - desenha um momento de extrema importância para a política nacional.

A talvez nunca antes explicada inclusão do presidente do Senado entre os imortais da Academia Brasileira de Letras pode ter encontrado agora a sua justificativa, pois coube a José Sarney encenar - tanto como um dos autores, quanto como personagem - um sintoma nacional. Ali, sob as palavras do político, o Senado se fez Cenado. E, num país carente de teatro, a cena retornou justamente onde devia.

E neste momento nós temos uma grande oportunidade.

Assim como uma pessoa que é extorquida por um policial tem a oportunidade de experimentar a diferença entre a polícia e a Polícia - sofrendo os abusos causados por um homem que encarna o excesso de autoridade e a falta de remuneração que resta à polícia, instituição que luta para se organizar de acordo com uma idéia, e que exibe constantemente facetas estranhas ou mesmo opostas a ela - nós aqui temos a oportunidade de afirmar a diferença entre a lei e a Lei. Nós temos essa oportunidade justamente por ser esta a crise que atravessamos agora.

Com os desenvolvimentos recentes da política - e a sua recepção pelo país - o que torna-se cada vez mais aparente no discurso político é a grande aceitação de que essa diferença seja colapsada: Que a lei, com seu ranço e buracos - problemas talvez decorridos, como diz Sergio Buarque de Holanda, de se instalar um sistema único à um território tão extenso - tome o lugar da Lei, o ideal vazio, nunca realizado, que serve de farol para qualquer organização.

O que é mais perigoso é que a estratificação dos dois terrenos não tem como função permitir que se discuta e resolva o problema da corrupção. Esse discurso que horizontaliza dos dois registros serve para proteger e resguardar tanto aqueles que se utilizam do espaço entre as duas quanto aqueles que não querem lidar com o problema, pois a existência da corrupção por baixo do registro oficial da política não é a novidade, o que permanece novidade é como os dois sempre se entrelaçaram - e isso agora fica ainda mais oculto.

Na filosofia, na ciência (normalmente associada à religião), na arte e na política, os movimentos contemporâneos de horizontalização, tentativas de se liberar do suporte de uma autoridade externa ao mundo, um Ideal, Causa, Deus etc, trazem consigo esse perigo: a ilusão de que a neutralização, a equivalência ou estratificação dos registros é para todos. Não devemos deixar de nos perguntar: para quem é que é encenada essa equivalência de registros (entre o oficial e o clandestino, no caso)? Pois quanto mais se fala da corrupção, quanto mais vulgar fica o discurso dos nossos políticos, mais profundamente é escondida a conexão entre o poder público e o poder paralelo.

Aliado a esse desenvolvimento no discurso da corrupção - e muito de acordo com a história das últimas décadas do Brasil, que testemunhou o fim dos últimos recantos de produção cultural politizada no país - podemos encontrar a máxima liberal de que com a maturidade se deixa para trás a utopia e aprende-se que o mundo é mais complexo, que devemos aprender que tudo é compromisso. Mas o que se aprendeu em casa, agora mostra suas consequências no Planalto Central.

Hoje, frente ao exercício vazio que é a performance democrática no Brasil, é o momento de constatar que deixar a utopia para trás não é lidar com o mundo de frente e resolver os problemas que se apresentam, mas deixar que o espaço entre a realidade e esse algo mais, a referência vazia do Ideal - que é o que possibilita a emergência de novos valores - se perca.

E quando se fecha esse espaço entre os dois o que se coloca em risco não são só os próximos passos na história do país, mas a própria idéia de nação.

Quando o presidente do Senado sabe ter respaldo político o suficiente para utilizar-se do recurso carrolliano de negar até uma prova concreta, um papel com sua assinatura confirmando seu envolvimento com o caso, o país tem o dever de exigir não o fim da corrupção - pois a relação do brasileiro com a corrupção ainda há de ser encenada em diversos sintomas, tão intrincada parece ser a identidade nacional com a noção de poder paralelo - mas que o desenvolvimento da política no país não seja feito às custas de da própria idéia de Política.

Para tratar de algo eterno - como uma Idéia - talvez tenhamos finalmente feito uso da cadeira de um Imortal: a defesa de José Sarney marca na história do país a emergência de que se retorne àqueles mesmos conceitos que o discurso liberal democrático descartou como antiquados ou radicais, e que agora fazem falta (ou melhor, cuja ausência impede a falta de se fazer, como percebemos, angustiados com a impotência com a que testemunhamos a cena do Senado), tendo a coragem de impor ao Novo o traço irascível não do velho, mas do eterno, que é o lugar da tradição.

E enquanto esse trabalho conceitual não tem lugar - pois não basta eleger uma Idéia, é primeiro necessário descobrir quais idéias nós já elegemos, e talvez não tenhamos a coragem de admitir - é em direção à fineza, humilde arte do gesto vazio, que segura a fresta entre o público e o privado, que devemos nos guiar.

23.2.09

y)





Eu a imagino deitada, dormindo. Dormindo porque não morta. Dormindo porque imaginá-la fora da aridez do sono é demais. Já existe um excesso de fé na idéia de que poderia estar ali, serena, eterna. Um excesso de fé na imagem. Eu penso que ela está ali como uma estátua de areia - menos: uma forma na areia. Um acidente qualquer na paisagem.

II
Quando eu era mais novo, meu pai me levou pra viajar. Lá tudo era ralo e o ocre oco da terra me incomodava a vista. Nunca entendi como pode haver excesso de nada, mas aquele terreno só horizonte, só espera, não era nada - só ausência e poeira presa na vegetação baixa. Eu tinha medo. Que animais se esconderiam na secura abominável dessas bandas? De onde viria o cheiro de água que o azul do céu sussurrava nos ouvidos? A fome. A falta.

III
Ela estaria ali deitada, sonhando para além do meu sonho - porque o que eu imagino não é ela: é o deserto, é o mal. Não o seu corpo jovem deitado, descansando numa tarde quente no Rio, mas a impossibilidade de ela estar lá, sofrível, no mesmo mundo que o Pão de Açúcar e os Arcos da Lapa.

E não era mesmo o mesmo mundo: Em um evangelho está escrito que o diabo está nos detalhes. Num outro que é deus. O que eu sei é que está nos detalhes. Na curva do morro, no verde gasto dos caminhos, na pupila dilatada do escuro. O fogo de trás da cortina. É isso: ali a cortina está aberta e você olha pro fogo.

IV
Mas a própria lembrança dessa violência, dessa ruína de guerra que se demora infinita nação a dentro, é por si só outra ruína - porque as palavras são tanto, e portanto, tão pouco. A memória é uma palavra. A mulher deitada é uma palavra.

V
As cores sem nome de onde pululam as coisas: Se estivesse acordada, o que diria? Que animais se esconderiam na secura abominável do seu sono? De onde exalaria o cheiro de mar que me chega aos olhos e eu choro? 

Nela há de estar marcada a cartografia do meu desejo. Resta saber para onde é que me guia uma terra sem mapas. Estariam os caminhos marcados num idioma outro que o meu - seria a própria paisagem o código e a senha?

VI
Imagino o ocaso. Acompanho com a cabeça o sol. Deito meu rosto na terra, como ele. Tudo escurece - e da terra fumegante, pode-se ouvir o sussurro:

“o sertão vai virar mar. o sertão vai virar mar. o ser tão vai vir a amar.”

E a cama, estática, permanece estática. Um animal que dorme protegido sob a respiração mortífera do fantasma, esse corpo só nuvem e temor.

VII
Esse sono todo é meu, eu sei. Eu, dos olhos encerados, debaixo da macieira do jardim. Eu, que imagino primeiro os olhos, pra poder te ver. Eu que rezo: Que a definição do teu corpo seja ser tão e tanto, que o pouco que és é a vertigem, a parte.

29.1.09

x)




“Pois a fera que tanto te persegue
não franqueia o caminho ao caminhante,
senão que o veda e mata a quem o segue;

de natureza é vil, é rapinante,
tanto, que o seu desejo não sacia:
come e depois tem bem mais fome que antes.”
(Inferno 94-99, Dante)



Cheguei em casa e coloquei meu jantar no microondas. Carregava na pasta a ata da reunião de hoje:

“Sectus Sectum
Dia 36 do segundo mês do ano de 5027 (27 de Janeiro de 2009, no calendário cristão)

- O senhor Augusto Batista está doravante afastado das sessões. Maior cuidado para que não se repita o incidente. Talvez banir o uso de óculos durante as conjurações.
- O novo uniforme é chamativo demais. Trocar dizeres em dourado por outra cor. O senhor Tomas Mariano expôs seu ponto de que não é necessário para os procedimentos que a insígnia esteja escrita nas roupas. Averiguação mais cuidadosa a ser iniciada.
- Conjuração desconhecida encontrada num livro sem capa, pertencente ao senhor Augusto Batista, foi copiada - o que o torna, mais uma vez, desnecessário - e realizada ao final da sessão. Os efeitos mais sensíveis foram a drástica variação de temperatura dentro do círculo do ritual e os furiosos latidos no beco atrás da casa, onde não haviam cachorros.”


Meu prato de comida não deu nem duas voltas completas na janelinha quando eu percebi que não estava sozinho em casa. Uma mulher, nua, estava de pé no meio da sala. Num primeiro instante, sua nudez me protegeu de entender o perigo que eu corria.

Seu corpo, sob a luz fraca dos abajures, ganhava contornos excessivamente marcados, quase desenhados, e era impossível saber qual era a sua cor. Os cabelos negros e longos não escondiam os estranhos traços do seu rosto. O efeito de um rosto estrangeiro, a falta de familiaridade com as suas proporções, apontava para uma origem oriental. Não: mais ainda. Era uma terceira metade do mundo - nem Ocidente, nem Oriente. E foi então que entendi eu poderia estar em perigo.

Ela não se colocava como uma intrusa na minha casa. Na verdade, era a primeira vez em que via alguém que só habitava um espaço, e não um apartamento ou uma cidade. Ela estava ali e parecia excessivamente consciente do trabalho mental que eu estava fazendo por de trás dos meus olhos arregalados. Assim que eu alcancei este ponto, ela me disse: Que desejas ouvir e ver, e pelo pensamento aprender a conhecer? ao que respondi, escutando minha voz muito mais afetada aos ouvidos do que quando na garganta: Quem é você?. Eu temia aquele momento mais do que podia me fazer compreender.

Dando um passo para frente, ela me respondeu: Eu sou uma que eu não existe, o que me deixou muito confuso. O que queres?, perguntei num tom mais formal - afinal ela era ou não era uma que era, ou não era, o que a colocava certamente numa posição que demandava alguma reverência. Novamente, ela me disse: Que desejas ouvir e ver, e pelo pensamento aprender a conhecer? repetindo impecavelmente o desenho sonoro da primeira vez que me falou. Como num clarão, compreendi se tratar de um veículo, de uma boca que falava, e não de uma pessoa articulando perguntas e fazendo conversa.

Sem saber exatamente como proceder, ajoelhei-me e falei: Tudo. Eu juro que ouvi uma leve risada escapar de dentro dela, antes de ouví-la repetir: Que desejas ouvir e ver, e pelo pensamento aprender a conhecer? e de ser obrigado a compreender - através dessa repetição matraquenta, mecanismo estranhamente familiar ali, saindo daquela forma de mulher - que não havia Tudo a se conhecer.

A frustração e a raiva sobrepuseram-se uma a outra, e sobre mim, de forma inesperada, eclipsando até a surpresa de estar ali, ajoelhado, frente a uma criatura sem nome. Levantei-me.

Ela deu dois passos na minha direção e me abraçou. Percebi então que ela praticamente respondia à pergunta que ela mesma colocara: O que desejava eu ouvir e ver, e pelo pensamento aprender a conhecer? Ela. Meu corpo reagia como se fossemos duas gengivas a se roçarem, coçando. Balbuciei: Você.

Senti seu corpo descolando do meu, já empapado de suor, e uma tristeza cansada me envolveu quando senti o ar ventilar ali onde antes ela estava. Eu participava do desvelamento de todas as coisas, mas preferia o momento anterior.

Ela se deitou no chão da sala, sobre o tapete carcomido, e se pôs em uma posição complexa, que exigia extrema precisão e força, fazendo uma espécie de ponte, de barriga para cima, mas com os braços e pernas cruzados. Compreendi, num instante afiado e seco, do que se tratava. De alguma forma, naquela posição seu corpo dizia algo - assim como imagino funcionar a comunicação das abelhas:

Compreendi que testemunhava ali as consequências do ritual de mais cedo, na sessão. A temperatura e os latidos haviam sido apenas efeitos colaterais deste encantamento cuja origem nos era desconhecida, encantamento esse retirado de um livro sem capa, apresentado perante o círculo pelo tal Augusto, um cara sempre muito calado, que ficara cego durante a sessão de hoje. Os óculos estouraram na sua cara enquanto ele lia os versos secretos. Devíamos ter suspeitado que algo estava errado, já que nós tão prontamente assumimos isso como uma coincidência. Logo nós.

O encantamento, sem título, era curto e numa língua desconhecida, e estava escrito em fonemas e não palavras. Era feito para repetir, para a fala, não para a página. Não era a primeira vez que nos expúnhamos a línguas e versos que não entendíamos, mas também não teria sido a primeira vez em que nada acontecia e nós voltávamos para casa e para os livros, em busca de algum outro verso ou língua. Em todo caso, naquele momento, eu tinha na sala de estar uma mulher nua.

Com o rosto de ponta-cabeça, ela se virou para mim, estranhamente parecida com um animal - o rosto assentado ao contrário, como se assim o fosse originalmente - e esperou que eu fizesse algo. Me agachei do seu lado. Ela se mostrava para mim. Queria que eu percebesse quão pouco faltava para que sua pele começasse a evaporar, quão pouco faltava para que a leve penugem que a cobria se transformasse em névoa.

Com cuidado, apoiei a palma da minha mão sobre o seu ventre. Ela se deixou cair, por sobre os braços e pernas, num gesto inconcebível. Em seguida, se re-organizou velozmente numa nova posição, sentada com as costas retas e os braços e pernas em círculo, como se estivesse abraçada a um tronco. Novamente - se mostrando para mim - abaixou a cabeça, deixando visível seu pescoço. Coloquei a palma da mão em sua nuca e fechei meus dedos em torno de seu pescoço. Ela deu um leve grito, eufórica. Eu não fazia a menor idéia do que estava acontecendo. Tentava me lembrar de referências a esse processo em algum dos grandes Livros, mas nada vinha à mente. Mais uma vez ela se mexeu - parecia que seu corpo era vários corpos, se reagrupando, como alguém que surge de dentro da neblina.

Parou dessa vez completamente estirada no chão, com os braços esticados, as mãos entrelaçadas e as palmas dos pés se encostando, em forma de oito. Ela me apresentava seu corpo como se fosse uma advinha. Antes de encostar nela e perdê-la na sua própria desorganização, perguntei por impulso: És a chave? Ela riu. Me parecera uma pergunta bastante coerente. Para um ser imortal de outra dimensão até que ela era irritantemente debochada. Sem saber o que fazer, apoiei um braço no vão entre as suas pernas, e outro entre os seus braços. Ela me observava quase divertidamente. Eu sou a fechadura.

Apesar da vontade de eqüivaler ‘chave’ e ‘pica’ que subitamente me ocorreu, num torpor iridescente, o tom virginal da sua voz eliminava qualquer conotação sexual - uma falta de metáfora que ocupava o lugar para o qual todas as metáforas apontam, uma literalidade impossível. E, assim que o apito do microondas varou o ar como o uivo estridente, eu percebi que se eqüivalesse minha vontade com o meu desejo, poria tudo a perder.

Ela girou rapidamente e parou numa nova posição, oferecendo o pé ao toque.

Por mais que eu sentisse que essa era a experiência mais sexual de toda a minha vida, não deixava de sentir uma ligeira frustração por debaixo da pele: Então é assim que é pra se sentir quando se tem a experiência mais sexual de toda uma vida. Quase sem toques, um jogo de encaixe entre palavras e não corpos. Agora eu entendia melhor como agir. Ela era a fechadura, era a superfície em que eu escrevia a senha, não a porta, não a portadora. E ela me olhava, convidativa, e me mostrava o pé.

Assim que encostei no seu pé percebi que alguma coisa não estava certa. Seu rosto, antes levemente entretido com a minha insegurança, se fechou, e ela se encolheu, puxando a perna de volta. Tentei entender se aquela era a próxima posição, mas ela não só não olhava para mim, como olhava para uma estranha criatura que grunhia atrás de mim.

Como uma gota d’água escorrendo por uma linha, eu pude perceber meu pensamento percorrendo seu rosto, seus olhos, meu pensamento sendo remetido para a direção do seu olhar, meu pensamento reparando no enorme e peludo monstro que surgira logo do meu lado, com olhos vermelhos que escorriam continuamente do rosto, melando o meu tapete.

Dei um salto e me levantei. A criatura rosnava como se tentasse articular palavras e lutasse contra sua própria voz. Parecia ser bípede, mas ficava de quatro mesmo assim. Os pelos encardidos e grossos lhe davam a aparência de um macaco, enquanto os dentes e o focinho coloriam-no como um cachorro ou rato. Ela observava o demônio com apreensão - me ocorreu então que o bicho talvez fosse uma ameaça para nós dois.

Com cuidado, sem deixar de encarar o monstro nos olhos, me estiquei na direção dela e segurei seu braço pelo cotovelo, forçando ela a se levantar. O demônio rosnou alto e pulou como um gato para cima da mesinha de centro, preparando furiosamente o ataque. Ela se levantou e eu a puxei em direção à porta no mesmo momento em que a criatura avançou ferozmente para cima de nós, dando de cara na parede.

Saímos e eu fechei a porta. Podia ouvir lá dentro o monstro urrando e destruindo todo o meu apartamento. Olhando para a mulher que estava na minha frente, quieta e esperando, pensei que talvez eu tivesse aberto a porta errada - ou, ainda, que ela mesma não soubesse o que estava sendo guardado ali. Nos entreolhamos por mais um instante e então eu tirei minha blusa e cobri seu corpo nu.

11.12.08

v)























“Tendo o Nada partido, resta o castelo da pureza”


0. Primeiro, nada acontecia.

0.1 Quando aconteceu, alguns estavam em casa, já dormindo. Outros dançavam em discotecas - o som alto e grave comprimindo os corpos para o centro da pista. Havia muitos andando e muitos mais nos carros, no trânsito. Alguns dos que antes dançavam, estavam agora nos bares, e o contrário também era verdadeiro. Muitos estavam ao telefone e muitos mais vendo televisão. Poucos olhavam para o céu, e menos ainda para o chão. Alguns falavam e outros escutavam, mas não necessariamente as mesmas coisas. Quase ninguém morria doente, assassinado ou em acidentes naquele momento. E era velado a todos o que aconteceria, e que aconteceu, quando aconteceu.

1. Depois, não sobrou quase nada.

1.1 Quando a água desceu, quando o fogo sumiu, quando a terra cedeu e o ar tomou o vazio, as cidades apareceram novamente. Mas o que apareceu era o semblante da cidade, o semblante no lugar do que antes ali havia. Ao invés de um prédio, somente as vigas necessárias para sustentar ali como lugar do prédio. E tudo era a sombra do que era antes, sem ser o que antes se era. Só a sobra e a sombra. Algumas ruínas e poucos sobreviventes.

1.2 Depois: num certo lugar: um palco vazio feito de terra e casas destruídas.

2. Não se sabe a história de R.

2.1 R. vem caminhando, cambaleante, por entre os escombros. Ele está com sede e muito cansado. Seu cansaço vence lentamente suas pernas e R. vai ao chão, desmaiado.

2.2 Enquanto R. está caído no chão, X. se aproxima e aponta uma arma na sua cara, para ter certeza de que não se trata de uma ameaça. R. permanece no chão, desmaiado. X. então percebe que não se trata de uma ameaça.

2.3 X. carrega R. para a sua casa, deixando que R. descanse e se alimente.

2.3.1 A casa de X. é um casebre desmoronado, com uma cama e algumas caixas de comida estocadas.

3. R. acorda e descobre ter sido socorrido por X.

3.1 X. oferece comida e abrigo para R., desde que, em troca, R. trabalhe para X., catando e organizando o lixo. R. aceita.

3.2 R. e X. se tornam amigos e conversam sobre antes durante um jantar.

3.2.1 R. conta que trabalhava num cinema, que estava na sala de projeção quando tudo aconteceu. Ele teve a impressão de que desmaiava e que o seu desmaio distorcia a sala de projeção, como se ele estivesse nauseado e o mundo se curvasse frente ao seu enjôo. Primeiro a causa no corpo, depois o mundo ruindo. Quando voltou a si, estava preso entre ferragens e não havia mais cinema. Estava a céu aberto e o azul claro do céu vazava sobre a ruína do teatro, mantendo a morte separada dos corpos espalhados nas pedras. Tudo era silencioso e claro.

3.2.2 X. morava no mesmo casebre em que agora mora. Antes chamava de casebre, como agora também chama. Catava comida do lixo e dormia com frio, como ainda faz, mesmo depois. Ele estava dormindo quando veio, e acordou quando tudo estava ao chão.

3.2.2.1 Tivesse ele bebido um pouco mais naquela noite, teria sido uma noite qualquer.

3.2.2.2 Ele ainda chama de lixo o que agora leva o nome de resto.

4. R. trabalha para X., catando e organizando o lixo, procurando algo que ainda tenha uso possível.

4.1 Um dia, trabalhando, R. encontra algo de útil entre os restos de uma casa. Satisfeito, ele levanta e olha em volta. O céu está azul e o mundo, silencioso. Por um segundo, R. está feliz.

5. R. está trabalhando para X., catando e organizando o lixo, quando vê J., caminhando entre os restos.

5.0.1 J. caminha entre os restos, com uma mochila nas costas.

5.1 J. se aproxima de R., que está surpreso por encontrar alguém que não X. Os dois conversam e J. explica que está indo para o Espírito Santo. R. reclama e diz que existem poucas chances de existirem outros sobreviventes, mas J. argumenta que isso não vem ao caso.

5.1.1 A posição de R. é: Por que se arriscar num mundo que agora é muito mais perigoso e difícil, quando se pode aproveitar a sorte de ter encontrado abrigo, o que é algo bastante improvável.

5.1.1.1 Sua posição é: Algo aconteceu, mas ainda há como viver como se não tivesse acontecido.

5.1.2 A posição de J. é: É um momento de entusiasmo na História e ela tem vontade de se aventurar.

5.1.2.1 Sua posição é: Algo aconteceu e há mais risco em viver a vida como se o Novo não existisse, do que assumir o risco de estar a altura do que o Novo é.

5.2 Os dois caminham juntos e se sentam entre os destroços. R. pergunta para J. sobre a sua vida. Ela conta que era cantora de apoio num grupo que se apresentava em bares e pequenas casas de show. Na Hora, ela estava na praia com as amigas, comemorando o aniversário de uma delas. Estavam sentadas na areia, conversando. Logo depois, ela acordou dentro do mar, sem saber aonde era a costa. Atordoada, deixou-se afundar por um minuto, mas percebeu que ainda tinha forças no corpo. Em seguida, olhou em volta e encontrou a cidade. Uma mancha escura, porém opaca, sob o escuro transparente da noite. Enquanto nadava de volta, teve dois pensamentos:

5.2.1 Não estou nadando para a mesma cidade.

5.2.2 Eu estava pronta para isso, e não sabia.

5.3 R. pede então que J. cante uma música.

5.3.1 Ela canta:

Eu carrego o meu corpo
pra onde ele me levar
Eu sou só na minha voz
É na voz que eu faço lar

Quando você me beijou
eu pensei que fosse morrer
Não sabia que duas bocas podiam
Fazer música sem se mexer.

Cantar sem fazer som:
o amor me faz dizer sim com o corpo.
E declarar o amor é um dom:
é fazer da tormenta do mar, um porto.



5.4 J. pergunta se R. pode arranjar alguma comida para ela levar no resto da viagem. R. diz que consegue alguma coisa com X., seu amigo, com quem mora ali por perto. Por um momento, existe um olhar entre os dois. R. sorri. J. responde, divertida com a própria aspereza, que mesmo que R. fosse o último homem no mundo, eles não vão transar. R. rumina a ironia da situação, imaginando se deveria contar X. como um homem.

6. R. volta para o casebre e pega comida para J. X. vê o que R. está fazendo e pergunta o que está acontecendo.

6.1 R. explica que está pegando comida para uma mulher que conheceu, e que os dois vão para o Espírito Santo. X. diz que R. não pode ir, porque R. deve demais a X., pelo abrigo e pela comida - afinal ele é preguiçoso e seu trabalho não equivale ao que ele recebe em troca. R. fica surpreso com X. e não leva a sério o que ele diz.

6.2 X. aponta uma arma para R. e manda que ele não vá embora. Apavorado, R. diz que não irá, que só vai fazer um pequeno lanche lá fora.

7. R. e J. comem juntos, sentados entre ruínas. J. fala que a comida não é suficiente para a viagem, e R. diz que vai conseguir mais, e que ele quer ir com ela. J. diz que ela vai partir no dia seguinte de manhã e que os dois poderiam se encontrar bem cedo ali mesmo. Os dois terminam de comer em silêncio.

8. R. volta para o casebre.

8.1 X. já está dormindo. R. hesita por um momento, antes de pegar a arma dentro de um caixote e matar X.

8.2 X. está morto. R. se senta no chão e entende que o casebre agora é seu.

9. R. encontra J. no lugar combinado, carregando alguns pacotes de comida.

9.1 Ele entrega a comida e diz que não vai com ela, porque ele tem casa e comida ali e não quer arriscar perder tudo. Além do que, X. não está mais lá e ele é dono do lugar agora. R. pergunta se J. não quer ficar com ele., mas J. diz que não, ela vai seguir viagem.

9.1.1 R. fica desapontado, pois esperava que sua nova condição fosse ser razão suficiente para que J. ficasse com ele, assim como é razão suficiente para que ele fique.

9.2 J. e R. se despedem e J. vai embora, com uma tristeza no corpo, que caminha devagar pela paisagem, e uma alegria violenta e descabida, sempre um passo a sua frente.

10. O tempo passa e R. é dono de seu casebre.

10.01 Agora, R. chama o casebre de casa.

10.1 R. está trabalhando, catando coisas do lixo. Ele volta para casa e senta do lado de fora para comer. O céu continua da mesma cor, o mesmo azul.

10.1.1 Mas está tudo mais silencioso que o normal.

10.2 R. termina de almoçar e se levanta para caminhar.

10.2.1 R. caminha para longe e, sob a égide insuspeita de um gesto sem sombra, nunca mais voltará.

27.10.08

u)

Estou deitado na cama, dormindo. Na hora grave, um sol eclipsado, cego, mancha o azul inexistente do céu com violeta e amarelo. Através da cortina entreaberta entra essa luz oscilante, ruidosa como o ranger de dentes. Meu quarto fica assim suspenso num outro tempo, ditado pela eternidade sinuosa da hora grave. Aqui, o tempo sussurra sem som: Estou aqui, eu me alcancei.

Nesse lugar, em que o horror do instante ganha corpo e tudo está morto e vivo ao mesmo tempo, eu estou deitado na cama. A boca, ouvidos e olhos, inúteis, coçam como se alguém os desenhasse em mim e eu me reconheço somente como o peso no colchão. Tudo o mais coincide comigo ou não, descansando onde estou ou pelo resto do quarto, que também coça, estaticamente.

Bruscamente, um ruído que eu não escutava, mas sabia estar lá, se transforma em passos pela minha casa. Escuto as portas abrindo e fechando e passos de quatro ou cinco pessoas. Essas pessoas conversam e sussurram entre si, numa língua que eu não conheço. São ladrões. Estão procurando alguma coisa pela casa.

Eu já não podia me mexer antes, mas agora que percebo não poder, fico aterrorizado. Se eles entrarem no quarto, eu não vou poder me defender. A luz que entra pela janela é um lusco-fusco invertido, uma meia-luz que não pertence a nenhuma das metades do dia, e, de repente, me dou conta de que eu posso ter sido condenado a estar aqui e agora, para sempre.

Nesse momento, escuto passos se aproximando. Do canto dos olhos eu vejo um braço que entra pela porta, mas não consigo ver a quem pertence. A mão bate três vezes na parede, chamando minha atenção, e em seguida faz um sinal de positivo.

xxx

Acordo, como quem desmaia. Está bem cedo ainda. Moro em Londres e o dia nublado e chuvoso absorve boa parte da luminosidade. Aqui os dias são uma longa hora e as sombras são nuanças. Sento na cama e deixo o sono escorrer.

Subitamente, congelo, paralisado de medo. Meu silêncio casual e morno é cortado pela lâmina mortal de um outro silêncio, grave e desumano, em que eu escuto, incrédulo, a ausência daqueles passos e sussurros.

24.10.08

t)


(fragmento)

Bom dia, Coelhinhas do Rio.
Oi, de onde fala?
Coelhinhas do Rio. Quem fala?
Eh, meu nome é João.
Pois não, senhor João.
Qual o serviço que vocês oferecem?
Coelhinhas do Rio possui uma gama de modelos e artistas para serviços de acompanhante e animação de festas infantis.
Ah sim. Eu gostaria de marcar um encontro com uma acompanhante.
O senhor visitou o nosso site?
Não.
Gostaria que eu descrevesse algumas de nossas coelhinhas?
Por favor.
Bem. Yasmin é uma linda e alta loira, do tipo gostosona, peituda. Ela adora chupar pica e faz de tudo, menos anal. Fantasias e acessórios por conta do cliente.
Ahn.
Tem a Mirelle, que é uma gatinha manhosa. Morena e mignon, faz qualquer coisa para agradar. Vinda do interior, Mirelle é carinhosa e discreta, mas gosta de ser dominada e de apanhar - de levinho.
Hm. Quem mais?
Belara é uma nega selvagem, vadia, vagabunda. Puta mesmo. Acostumada a dar conta de três, quatro clientes de uma vez, num pacote especial. Você pode tratar ela como um cachorro, cuspir na cara e tudo mais. Tem a Diane, que é bem safadinha, lolita, tem carinha de criança e faz o seu pau parecer enorme na mão dela. Tem a Selene, a Tamisa...a Tamisa realmente faz animação em festa de criança, se você quiser.
Estou em dúvida.
O senhor tem alguma coisa específica em mente?
Hm. Você tem alguma que tenha em torno de um metro e sessenta e cinco, uns 24 anos, seja morena, de pele bem branquinha, magra, com muitas pintas, olhos amendoados...uma cicatriz no ombro direito...
Deixa eu pensar...tem a Damaris. Damaris é uma gata quente, sedenta por sexo. Seu corpo perfeito e delicioso tem como único propósito dar prazer. Se você gosta de uma ninfetinha safada que vai sugar toda a sua porra, você encontrou a mulher dos seus sonhos!
Ahn.
...e ela tem uma cicatriz no ombro direito.
Por acaso o nome dela é Miranda Coelho Neto?

Silêncio.

Um segundo, querido. Vou te passar para a gerente.

Edson pára de andar de um lado para o outro e se apóia contra a estreita bancada do gaveteiro. O móvel range sofregamente com o peso do seu corpo. Do lado de fora vem primeiro o som de uma freada brusca, com buzinas, seguido do canto breve de um pássaro indefinido.

Alou? Senhor João?
Meu nome é Edson.
Fui informada de que o senhor está interessado em contratar os serviços de Damaris.
Isso, Miranda.
Então. O senhor é amigo pessoal?
Não, só quero marcar um encontro.
Para quando?
Hoje à noite.
Ela não está disponível no momento, senhor Edson. Se o senhor não se importar, podemos já deixar marcado para amanhã ou depois, ou então o senhor pode escolher outra de nossas seletas acompanhantes. Você sabe, Belara é uma nega selvagem, vadia, vagab..
Sim, sim...já entendi. Qual o seu nome?
É Mara.
Mara, sou investigador de polícia. Me chamo Edson Caetano.
Ah. Entendo. Pois não, o senhor quer desconto?
Estou ligando porque preciso de informações relacionadas a Miranda Coelho Neto.
Ela não está.
Eu sei. Ela foi assassinada ontem à noite.
Ai meu deus.

Mara desliga o telefone. Edson respira fundo.

Bom dia, Coelhinhas do Rio.
Sou eu de novo. Passa para a Mara.
Pois não, senhor João.

Alou?
Mara?
Não. Meu nome é Dilma, sou a dona. Senhor Edson, fui informada que Damaris foi assassinada.
Sim, é verdade.
O senhor me desculpe pela Mara. Ela está trancada no banheiro. Ela e Damaris eram muito próximas.
Entendo, sem problemas.
Mas o que aconteceu com ela?
Encontramos a vítima estrangulada num quarto de motel hoje de manhã.
Motel Style.
Isso. A perícia ainda está averiguando o local e as evidências. É um crime horrível, eu sinto muitíssimo.
A família sabe? Sabem do trabalho dela?
Sabem, conversei com eles.
Hm.
Dilma, eu preciso urgentemente do nome e do telefone do último cliente dela. É o nosso principal suspeito.
Lamento muito, Edson, mas não posso te dar essas informações.
O quê?
Não posso.
Você tem de colaborar com a polícia.
Edson. Posso ser franca com o você, querido? Damaris não é a primeira puta daqui que morre. Não posso arriscar fecharem o meu estabelecimento por causa de uma menina.
Mas eu posso mandar fechar essa porra!
Não me faça rir. Olha, tomara que vocês peguem o filha da puta e ele seja currado na prisão. E morra. É por isso que eu não faço mais pista. O que antes era inefável nas meninas agora o cliente tenta arrancar a força, como se desse para espremer a puta até aparecer o que ele quer. Ninguém quer gozar mais, mas ficam querendo que a gente engula a porra toda. Eu torço muito mesmo para que vocês prendam o culpado, mas você e eu sabemos que para isso acontecer a gente teria que torcer por muitas outras coisas antes.
Dona Dilma...por favor.
Não. Não me peça novamente. E boa sorte, querido.

10.10.08

s)



Para Clarke e Asimov


Eu estou no laboratório da Universidade. Sou estrangeiro e saí do meu país para poder prosseguir com minha pesquisa. Lá, na minha terra natal, alguns dos experimentos que tenho de realizar para comprovar as minhas hipóteses são proibidos. Aqui não.

Cheguei cedo ao laboratório. Na falta de estímulo para socializar com os outros pesquisadores, eu acredito que o tempo que passo sozinho antes de todo mundo chegar pode ser deduzido no final do dia, quando se formam algumas rodas de conversa na frente do prédio e todos saem para tomar uma cerveja.

São onze e meia da manhã e o dia lá fora parece chuvoso. O nosso laboratório é no subsolo do departamento de física experimental, do qual sou o coordenador internacional. Não temos janelas e minha suspeita de mal tempo é baseada somente no barulho distante e repetido de uma gota no ar condicionado da ante-sala.

Mary, minha assistente, termina os últimos preparos.

No meu país as coisas eram muito diferentes. Extra-oficialmente, nós chegamos a fazer alguns dos testes. Num mendigo. Achei ele do lado de fora do prédio da minha ex-mulher. Ele fora atropelado ou apanhara de alguém. Eu o levei para o nosso laboratório - improvisado numa ala abandonada do prédio de zoologia - e chamei o resto da equipe. Antes mesmo do sol subir nós já sabíamos que era verdade. Não havia atividade cerebral o suficiente para verificarmos com total certeza, mas, ainda assim, nosso trabalho de quase uma década se mostrava confirmado.

Pouco tempo depois me mudei para cá. Eu sabia que agora era só uma questão de tempo.

Mary já realizou a primeira incisão e está terminando de serrar o osso frontal, deixando exposto o cérebro do homem. A precisão insuperável do trabalho de Marianne Fiddlesworth me enche não só de segurança frente aos desafios desse procedimento, mas também não me deixa esquecer de porque traio minha esposa duas vezes por semana com essa mulher extremamente habilidosa com as mãos.

O próximo passo é realizado por mim e mais um especialista. Cada um aparafusa um parafuso de titânio, oco, atravessando a área posterior e a anterior dos lobos parietais, alojando-se na área de Wernicke e na de Broca - convenientemente.

Por dentro dos parafusos, fazemos uma eletroforese em gel usando um composto desenvolvido por mim, feito a base de agarose e TBE. A diferença - e nisso reside boa parte de meu atual renome - foi ter misturado um amido retirado da mandioca à já conhecida solução, que hoje leva o meu nome, antes de fundir e adicionar o brometo de etídio. Sem este gel seria impossível a coleta de dados.

Em seguida, ligamos aos parafusos os computadores que fazem a leitura e interpretação dos impulsos recebidos. A minúscula corrente que passa pelos conduítes já é suficiente para que o homem comece a fazer movimentos involuntários, abrindo e fechando os olhos, tremendo levemente e forçando as mãos contra a mesa de cirurgia.

A função dos computadores é receber os impulsos elétricos enviados através dos parafusos e organizá-los segundo a interface linguística desenvolvida por Voight-Kampf. Esse sistema não só lhe rendeu o prêmio Nobel, como uma grande soma de dinheiro ao vender a tecnologia para o exército.

Tão imprescindível quanto esse avançadíssimo sistema de coleta e interpretação de impulsos nervosos é o composto gelatinoso que vai dentro dos parafusos. Foi o meu primeiro grande avanço no campo da tecnologia neuro-biológica. Por ser excessivamente sensível as menores variações, é o conduíte perfeito para nossos experimentos.

Acontece que meu segundo grande passo foi a descoberta de que as informações relacionadas à linguagem e ao pensamento articulado não são fruto de sinapses e áreas do cérebro especificas, mas de um resíduo, um ruído elétrico insignificante, que fica em surdina em toda mensagem do sistema nervoso, mais facilmente identificável nas áreas de Broca e Wernicke. Espero concorrer ao Nobel este ano.

Com a possibilidade de medir os impulsos elétricos com tamanha precisão, podemos isolar essas micro-oscilações e então interpretar os dados através dos computadores de Voight-Kampf.

Tudo está instalado corretamente e agora podemos prosseguir.

Peço para Mary que aumente a corrente. Rapidamente os primeiros resultados aparecem. O sujeito começa a falar, mesmo de boca fechada. As outras contrações e espasmos param. Quando diminuímos a intensidade, a fala pára.

Programamos os computadores para começar a traduzir. Agora, quando aumentamos a intensidade novamente, algumas letras desconexas começam a aparecer no monitor. Essas palavras inexistentes começam a dar lugar para expressões com sentido e, depois, frases completas.

Num gesto descuidado e eufórico, me debruço sobre seu corpo e separo os lábios do voluntário - assumo que tenha sido voluntário, não participei do processo de seleção da cobaia - para poder entender o que ele diz. Aproximo meu ouvido.

“eu nunca fui a praia”
“a areia quente deve machucar os pés”
“mas você pode descansar os pés na água do mar”

O grito agudo e juvenil de Mary e dos assistentes me desconcentra. Desvio minha atenção de volta para o monitor. Lá está escrito:

reth ommytd dsdh asfdsg
fjas as assas isi asa au
aumfau feijão feijão eija reija
reija giiiuuu eu nunca
eu nunca fui a praia
a areia quente deve machucar os pés
mas você pode descansar os pés na água do mar

Mal posso conter a euforia. Mas o momento é crítico. Para a confirmação final, precisamos que ele esteja desperto e consciente. Com uma pressa cortante, peço concentração aos meus colegas e mando que apliquem o coquetel para acordar o homem.

Os cinco minutos que se seguem são de grande nervosismo e apreensão. Observo o homem acordando, confuso e anestesiado, tentando compreender aonde está. Não me aproximo, enquanto Mary explica de forma eufemista o que está acontecendo. Seu sorriso desajeitado e sua escolha de palavras - como se falasse com um retardado - me enchem de ciúme. Aquela puta está dando em cima do retardado, na minha frente. Observo com certa satisfação como o homem responde literalmente como um retardado, fazendo pequenos movimentos com a cabeça - os únicos que consegue - e sorrindo e babando como um cachorro. Deixo escapar uma curta risada. Ninguém mais parece achar graça. O homem volta a falar sem controle - o que parece ser bastante angustiante para ele, que não consegue controlar sua própria boca.

O Voight-Kampf começa a trabalhar freneticamente.

“Quando eu caminhar na areia vou tomar cuidado com os cacos de vidro”
Quando eu caminhar na areia vou tomar cuidado com os cacos de vidro.
“Se você cortar o pé na areia, pode lavar o sangue na água do mar”
Se você cortar o pé na areia, pode lavar o sangue na água do mar.
“Quero enfiar meu pau na areia da praia. Num castelo de areia”
Quero enfiar meu pau na areia da praia. Num castelo de areia.
Meu deus, o que está acontecendo?
Aquela puta está dando em cima do retardado, na minha frente.
Puta merda, o que é isso?
Será que o doutor sabe o que está havendo?
Caralho.

Meus joelhos tremem e eu quase desmaio. O homem não está falando. No monitor, entre duas frases que ninguém disse, está escrito:

Aquela puta está dando em cima do retardado, na minha frente.

Eu pensei isso.

Em seguida, no monitor - que continua desfilando frases desconexas - aparece:

Pobre coitado. Ele vai morrer com certeza.
Está na hora de aplicar a segunda dose...acho.
Eu pensei isso.
O que está acontecendo, meu deus. Esse monitor....
Meu deus, o monitor...

Minha pressão baixa vertiginosamente. Me apoio na mesa.

“Meu deus”
Meu deus.
“Doutor, você está bem?”
Doutor, você está bem?
“Estou, Mary. Estou bem.”
Estou, Mary. Estou bem.

Mary olha para o monitor e arregala os olhos, pálida. Os assistentes estão em torno do homem, tentando entender porque ele não está falando. Eu me aproximo da tela do Voight-Kampf.

Meu deus. Está lendo tudo.
Meu deus. Está lendo tudo.

Me volto para Mary - por um segundo fico preocupado pensando se ela tem idéia do que está acontecendo, e se entendeu que eu de fato pensei aquilo sobre o retardado.

Será que ela tem idéia do que está acontencendo? A coisa do retardado...
Será que ela tem idéia do que está acontencendo? A coisa do retardado...

Volto a olhar o monitor e tomo um susto com a confirmação que meu pensamento está de fato escrito na tela. O meu e o de todos os presentes.

O fluxo de frases começa a aumentar. Quanto mais eu tento entender o que se passa, mais texto passa na tela do computador. Os assistentes, em pânico, começam a falar sozinhos. O fluxo cresce exponencialmente. O computador começa a apitar e, de tão rápido, escuto o processador girando dentro da máquina. Não é mais possível ler o que acontece na tela, de tão rápido que se escrevem as frases. Me parece que tanta informação assim não pode vir somente desta sala.

O homem entra em choque. Mary começa a chorar. O apito da máquina fica insuportável. Em um movimento explosivo, o homem começa a se debater, espumando e sangrando tanto pela boca como pelos ouvidos, olhos e nariz. Um cheiro forte de queimado sai do computador, mas ele não pára de acelerar. Na tela, passam tão rápido as palavras que o texto mais parece uma interferência eletromagnética, fazendo o monitor pulsar.

Os dois assistentes saem da sala para chamar ajuda, mas eu sei que ninguém vai vir. Já contávamos com a morte do cobaia, na verdade.

O apito se torna um ruído agudo e contínuo e diminui de intensidade, ficando quase mascarado pelo apitar dos outros equipamentos. Tecnicamente, esse homem está morto.

Mary está no chão, paralisada.

Tento encostar no homem, mas, quando o faço, o barulho do Voight-Kampf se torna ensurdecedor novamente, como se criássemos uma microfonia entre nós dois. Tenho a intuição de que a máquina colapsa, pois se entro em contato direto com o sujeito, os dados se infinitizam, num pleonasmo ad eternum. O mesmo ocorre se tento desligar a máquina.

O ruído volta a uma intensidade suportável. Escuto agora o choro desesperado de Mary. Pego ela pelo braço e saímos dali.

Subimos as escadas de incêndio e sentamos na calçada. Já está escuro. Um carro preto pára perto da entrada do prédio e três oficiais do governo entram pela porta que acabamos de sair. Ao fundo, escuto o barulho abafado dos computadores.

Passo o braço em torno de Mary - Marianne Fiddlesworth. Pobrezinha, está em choque. Eu também estou confuso. Não sei medir a extensão do que acaba de acontecer.

Encosto meu rosto nos seus cabelos loiros e respiro profundamente. Estranho. Não sinto cheiro algum. No céu, as estrelas começam a se apagar, uma a uma.

8.10.08

r)

Não fui eu. Eu te asseguro, inspetor. Eu posso...Eu juro. Por essa bíblia aqui.
Por que o senhor está me olhando assim? Me desculpe - Eu não sabia que a bíblia era sua.
Mas você tem que acreditar em mim. Não fui eu. Eu já expliquei - Eu expliquei para eles.
Eu cheguei depois. Ela estava no chão - tinha sangue por todo lado. Eu não sei.
Eu cheguei depois e - de repente - eu estava com ela, segurando ela nos meus braços.
Eu não sei porque encostei no corpo. Eu não estava assustado. Eu não sei por quê. Eu não devia encostar, eu sei.
Essa situação...
Eu sei que não fiz nada, mas eu entendo - vocês tem que checar. Você não acredita em mim.
Eu não sei por que, inspetor: Eu não senti nada. Eu não pensei em ligar para ninguém. Você pode perguntar pra quem quiser, ela era a minha... todo mundo sabe - eu a amava muito. Até eu estou duvidando disso agora. Eu não senti nada. Eu não sei por que encostei no corpo, segurei ela. Eu não consegui ficar ali, de pé. Eu tinha que - deus.
Você sabe - inspetor - senhor - Você sabe que que é engraçado? Eu me sinto tão - Me sinto tão envergonhado. Eu não sei como explicar. Eu sei que estou dizendo a verdade, mas eu consigo escutar que não estou sendo convincente.
Meu Deus. Ela está morta. Eu tive ela em meus braços, senhor. Antes, eu digo.
Eu a amava. Agora é tão estranho estar aqui.
Essa luz no meu rosto, senhor - Você poderia desligar essa luz?
Me sinto tão culpado.

2.10.08

q)

estou sentado no bar há uma hora. tomei uma cerveja, mas o cigarro que eu filei era muito forte e tanto a cerveja quanto o cigarro me deixaram enjoado e sem vontade. a noite está meio cinzenta, como se não fosse tanto falta de luz no céu, mas uma espessa e negra fumaça cobrindo a cidade. peço um copo d'água, tentando tirar da boca a impressão de que vou vomitar. uma mulher de óculos escuros, echarpe na cabeça e sobretudo bege senta na minha frente.

finge que me conhece.
ahn?
finge que você estava me esperando. rápido.
ah ta. oi, tudo bem?

ela não responde. através dos óculos escuros, ela parece estar olhando para alguém atrás de mim, mas não tenho certeza. nervoso, fico em silêncio, tentando acompanhar o que está acontecendo, mas logo percebo que ela está é esperando que eu continue a falar.

é. o que está acontecendo?
nada. nada está acontecendo.
ahn bom. é. quem é você?
qual o seu nome?
o meu é gabriel. e o seu?
gabriel, você está esperando alguém?
não.
bom.
escuta, você não vai me dizer quem você é não?

o garçom passa do lado da mesa e ela faz um sinal, pedindo uma cerveja. fico olhando para ela, esperando uma resposta. ela nem ouviu a pergunta. ela tira os óculos e a echarpe. guarda os dois na bolsa e acende um cigarro, enquanto o garçom serve a bebida. ela toma um gole e, pela fumaça do primeiro trago, olha nos meus olhos.

parece que ela ainda está de óculos escuros. sua boca traga o ar e volta a falar quando expira.

gabriel, não se preocupe, o perigo já passou. está tudo bem.
você pode me explicar o que aconteceu? o que é isso? tem alguém te seguindo?
você quer mesmo saber?

na verdade, eu já não estou mais tão interessado no ocorrido. ela é uma mulher bonita e eu quero dormir com ela. tento parecer interessante e perigoso também.

me conta.
eu não vou te falar o meu nome, mas no meu trabalho eu sou conhecida como Filó. meus clientes são todos homens importantes e com dinheiro, porque eu custo muito caro. não faço festas, não atendo mais de um cliente por noite, não vou na residência nem em motel. e recuso cliente. muitos. pra deitar comigo tem que ter algo específico na voz. na hora que o homem fala a primeira palavra pelo telefone, eu já sei. acaba que eu só atendo os muito poderosos. e eles sempre voltam. eles gostam de me ouvir gemer, eu acho. eu faço que gozo como se estivesse rezando uma ave-maria.

acontece que um homem chamado carlos maciel, figura importante da política, tenho certeza que você já ouviu dele nos jornais, é um cliente meu. toda semana ele me fode. já faz quase um ano. ele é um desses figurões da igreja evangélica, então fica louco com os meus gemidos. me manda presente, paga viagens. eu acho até que ele está apaixonado. ele mesmo me disse isso há algum tempo. eu não digo nada, eu só gemo. digo oh. ah. nem deus eu digo. ele é gentil comigo, fala pouco. tem uma pica fina e em ése. e é só eu sentar em cima dele e juntar as mãozinhas assim, como quem reza, que ele goza na hora.

não sei se você acompanha o noticiário, mas com as eleições surgiu uma rivalidade muito grande entre o carlos maciel, que está se candidatando para prefeito agora e o candidato de um outro partido, olavo santos cordeiro.

oficialmente, esse olavo santos tem críticas à postura da igreja evangélica quanto a uma série de assuntos. extra-oficialmente, o partido do olavo, que contribui regularmente com doações à igreja, em troca de contratos para a construtora de alguns de seus membros, está preocupado com uma manobra política recente dos evangélicos: liderados por carlos, eles denunciaram em seu canal de tv que a oposição estaria querendo corromper a igreja evangélica com subornos. isso afetou em muito as chances de olavo nessa eleição. ele não está nem cotado para o segundo turno, não sei se você sabe.

o meu serviço é muito discreto, não anuncio nem ofereço diretamente. não aceito recomendações. mesmo assim, sou conhecida, a Filó, Filomena. de alguma forma, o olavo santos cordeiro descobriu não só que seu inimigo dormia comigo, mas que ele gostava muito.

semana passada, ouvi uma voz no telefone que me deixou insegura. fiquei sem saber se se aceitava o cliente ou não. acabou que aceitei. à noite, quando ele chegou, percebi que tinha cometido um grande erro.

quando eu abri a porta, um homem magro e alto sorriu pra mim. eu sabia não se tratar do dono da voz no telefone. eu percebi que algo estava muito errado. ele me segurou pelo braço, ainda sorrindo, e me conduziu de volta para a sala. me explicou que trabalhava para um homem importante e perguntou sobre o carlos, sobre quando que ele vinha. disse que nós dois íamos fazer uma surpresa para ele. falou tudo isso com um sorriso tão tranqüilo que eu senti que ia desmaiar.

não desmaiei. pelos próximos quatro dias ele me torturou e me comeu. me deixou sem comer. apagou os cigarros nas minhas pernas. falou que ia arrancar as minhas unhas com um alicate se eu não fizesse o carlos maciel aparecer lá.

eu sabia que se eu ligasse para ele, ele desconfiaria. tentei explicar. o carlos normalmente me ligava às terças, pela tarde, para confirmar o encontro no dia seguinte, e ainda era sexta feira.

ele me manteve assim até domingo. hoje.

eu tentei escapar todas as noites, mas tinha um segurança, um capanga, e ele vigiava o apartamento, dava para ver pela janela do quarto. a porta estava trancada também, e a chave no bolso do cara, que sorria.

pois esse homem alto e magro, ele sorria o tempo todo. quando eu tentei fugir da primeira vez, ele me puxou pelo cabelo para a cozinha e, sem a menor pressa, me manteve deitada no chão, com seu pé na minha garganta, enquanto fervia uma panela de água. depois de fervido, ele deixou um filete de líquido cair lentamente em mim e queimar a minha barriga e os meus peitos. eu te mostro as marcas. meu corpo está cheio de marcas.

da segunda vez que tentei escapar, eu achei que ele estava dormindo e tentei abrir a janela. ele só teve que me chamar. Filó. e eu congelei. ele me deitou de volta na cama, me amarrou, e arrancou um pedaço da minha coxa, com a boca. ele me mordeu. a dor foi gritante, mas eu não consegui gritar. só consegui rezar uma ave-maria. torcer para ele ir embora ou para eu morrer logo.

hoje eu matei ele. ele ficou na minha frente e me obrigou a chupar a sua pica. eu peguei a arma dele e dei um tiro. achei a chave no seu bolso, me disfarcei e saí. saí do prédio pela janela do quarto do porteiro. já estava escuro, mas o cara que estava vigiando me viu.

ela olha em volta, furtivamente.

não sei. acho que despistei ele. com a sua ajuda.
caramba.

eu não sei o que falar. não acredito em uma palavra do que essa mulher acabou de me dizer. chego a minha cadeira mais perto da dela e coloco a mão na sua coxa. ela se ajeita na cadeira. percebo que seu sobretudo está manchado, possivelmente de sangue.

meu deus. você está muito machucada. vou te levar no hospital.
não! é o primeiro lugar que eles vão procurar. preciso usar um telefone. preciso ligar para o carlos.
eu moro aqui na esquina. vem comigo então. você pode ligar de lá e aí a gente faz os curativos.
tá bem.

a visão das suas pernas longas, dos seus pés descalços, me enche de tesão. deixo o dinheiro na mesa e tomo um último gole de cerveja. não me faz bem. filó se levanta devagar e coloca os óculos escuros. agora percebo como seus cabelos estão encardidos.

atravessamos a rua e subimos para o meu apartamento. o entusiasmo de estar levando uma mulher tão linda para a minha casa, mesmo nessas circunstâncias, me deixa alegre. ainda no elevador percebo que um leve sorriso se forma no meu rosto.

entramos e eu ligo o chuveiro. separo uma toalha e a ajudo a tirar a roupa. seu corpo está cheio de hematomas e pequenos cortes. na coxa, uma mancha enorme, com uma ferida ainda aberta. mesmo mutilada assim, ela é divina.

ela entra no banho e deixa a cortina aberta. eu abro o armário do banheiro e faço os preparativos, pegando os remédios. quando fecho a porta espelhada, enxergo o meu rosto refletido. atrás de mim, enxergo também o momento em que filó estremece, reconhecendo na minha estranha boca aquele sorriso familiar.

a porta está trancada.

30.9.08

p)

estou chupando a buceta da marcelle já deve ter uma meia hora. primeiro eu estava com o rosto entre as suas pernas, mas depois de quinze minutos não aguentei mais ficar naquela posição e apoiei meu rosto na sua coxa, o que me deixou com um pouco de sono. para ficar mais desperto, virei ela de quatro e fiquei lambendo seu cú e sua buceta. agora estou com uma mão na sua xoxota e com a outra eu empurro a sua cabeça contra o travesseiro.

aqui, com meu corpo pendendo por cima do dela, eu tenho um momento de reflexão.


será que o poeta, quando disse que procurava uma linguagem capaz de dar forma ao que tem forma e dar não-forma ao que assim o é, será que ele se referia a isso. será que ele se referia a ter uma mulher na cama e saber que não existe nada que não possa ser tocado pela letra e que, ainda assim, nem tudo está lá. sempre falta. será que é isso que ele quis dizer quando disse que as mulheres iam se tornar poetizas e que aí os homens as entenderiam. será que ele se deitou com elas e se deitou com eles e quis traduzir um no outro. será que o verlaine quis ser a mulher dele. será por isso que ele é tão musical. será que essa é a pretensão mística. gozar como uma mulher.

a marcelle fecha as pernas com a minha mão ainda entre as suas coxas e deixa seu corpo cair para o lado. passo meu braço por trás do seu pescoço e a trago para perto. de costas para mim, nos abraçamos. ela coloca a mão por cima da minha e me mostra como quer que eu faça. meu rosto fica enterrado nos seus cabelos enquanto eu forço o seu corpo contra o meu e me concentro na respiração dela. ela estica as pernas.

fico com a impressão geral de que quando uma mulher aponta para o infinito, ela o faz com os pés.

26.9.08

o)


Após a chacina que ocorre durante a passeata de São Sebastião, Dona Sandra lidera o Comitê Anti-Carnaval (CAC), que acredita ser uma obscenidade fazer o carnaval depois de uma tragédia dessas, e vai a TV dar uma entrevista.

Edson é detetive e investiga a morte de uma garota de programa que logo se descobre ser uma menina rica do Leblon. Tudo piora com as suspeitas de que o assassino foi o próprio pai. A mãe, desesperada para que as notícias do crime não se espalhem, tem um sonho:

Um menino sai a noite para passear pela favela, apesar de sua mãe ter mandado que não o fizesse, e acaba presenciando uma passeata de traficantes, putas e outros marginais subindo o morro com armas, drogas e defuntos. Ele volta para casa, mas sua mãe não o deixa entrar, dizendo que agora ele está jurado de morte. Ela dá uma arma ao menino, e pede para que ele se mate.

No dia seguinte, a mãe da menina morta vai até a delegacia e se oferece para Edson em troca do sigilo, mas ele a recusa. Ela se mata. Edson prende o pai da jovem assassinada.

Sebastião é enfermeiro num Posto de Saúde. Numa emergência, vai com o médico de plantão na ambulância sem freio do Posto de Saúde levando um bebê que tomou um tiro na cabeça até um hospital melhor equipado para operá-lo. O bebê morre no caminho e o médico acaba indo preso, confundido com um ladrão pela polícia (por causa da camisa cheia de sangue e a incapacidade de responder a perguntas por causa do choque).

No dia seguinte, Vicente acorda de manhã e lê no jornal seu próprio óbito. Ele vai até o Posto de Saúde onde é dito que ele faleceu e lá encontra Sebastião, que lhe explica que o bebê que morreu no dia anterior tinha exatamente o mesmo nome que ele.

Márcio é um ator pornô. Ele se apaixona por Cláudia durante uma cena em que ele goza na boca dela e, por um instante, eles tem um ‘momento’, mas ela não parece interessada de fato nele. Após as filmagens, Márcio vai fazer um teste para novela, e passa: Agora ele tem um papel importante na nova novela do horário nobre. Ele tem uma cena romântica na novela, e Cláudia se interessa por ele ao vê-lo representar. Os dois combinam um encontro e trepam num motel, só os dois, igualzinho a no set de filmagem.

Antão, que mora em sua pequena fazenda e tem no carnaval uma de suas poucas distrações, vê Dona Sandra na TV, larga a enxada, faz as malas e vem para o Rio de Janeiro para matar a líder do comitê. E a mata. O carnaval acontece.