Normalmente eu terceirizo. Nunca vi nada de interessante nessa parte do ramo. Essa é uma das poucas vezes em que me encontrei na situação de ter que arrancar eu mesmo as unhas de alguém. Não tive tempo de me organizar direito, então tudo esta sendo feito na minha casa mesmo, na cozinha.Demoro tempo demais amarrando o rapaz, ainda drogado, na cadeira. Além de ter que segurar suas mãos molengas no lugar, a porcaria da fita adesiva fica dobrando e eu tenho que usar quase metade do rolo. Abro a gaveta perto da pia e escolho cuidadosamente duas facas, as que não uso muito. Me arrependo de ter dado tantos comprimidos pro cara, porque queria ver a sua expressão de horror ao ver as facas saindo da gaveta. Admito que eu mesmo sinto um embrulho no estomago ao vê-las em cima da mesa.
Ainda tenho tempo de preparar um café e ligar a televisão por uns dez minutinhos antes de ouvi-lo arrastando a cadeira de um lado para o outro. Volto e sento na poltrona do lado dele. Instantaneamente me arrependo de ter amarrado o cara na cadeira mais alta. Por alguns segundos não tenho o que dizer. Ajeito o cordão no pescoço. Explico para ele o que irá se passar em seguida. Explico que tudo poderá ser evitado se ele desembuchar o nome do patrão. Faço tudo isso imitando uma das cenas que vi no cinema outro dia.
Eu levanto e busco na cozinha os objetos que arranjei e disponho todos eles em cima da mesinha de centro. Finalmente posso testemunhar a cara de pânico que ele faz ao ver as facas. Não sinto o prazer que achei que sentiria. Ao invés de respeito e medo de mim, sinto que seu horror ignora completamente o torturador, não indo além da faca, do martelo ou do alicate. Isso me enche de raiva. Decido começar pelos olhos.

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