2.10.08

q)

estou sentado no bar há uma hora. tomei uma cerveja, mas o cigarro que eu filei era muito forte e tanto a cerveja quanto o cigarro me deixaram enjoado e sem vontade. a noite está meio cinzenta, como se não fosse tanto falta de luz no céu, mas uma espessa e negra fumaça cobrindo a cidade. peço um copo d'água, tentando tirar da boca a impressão de que vou vomitar. uma mulher de óculos escuros, echarpe na cabeça e sobretudo bege senta na minha frente.

finge que me conhece.
ahn?
finge que você estava me esperando. rápido.
ah ta. oi, tudo bem?

ela não responde. através dos óculos escuros, ela parece estar olhando para alguém atrás de mim, mas não tenho certeza. nervoso, fico em silêncio, tentando acompanhar o que está acontecendo, mas logo percebo que ela está é esperando que eu continue a falar.

é. o que está acontecendo?
nada. nada está acontecendo.
ahn bom. é. quem é você?
qual o seu nome?
o meu é gabriel. e o seu?
gabriel, você está esperando alguém?
não.
bom.
escuta, você não vai me dizer quem você é não?

o garçom passa do lado da mesa e ela faz um sinal, pedindo uma cerveja. fico olhando para ela, esperando uma resposta. ela nem ouviu a pergunta. ela tira os óculos e a echarpe. guarda os dois na bolsa e acende um cigarro, enquanto o garçom serve a bebida. ela toma um gole e, pela fumaça do primeiro trago, olha nos meus olhos.

parece que ela ainda está de óculos escuros. sua boca traga o ar e volta a falar quando expira.

gabriel, não se preocupe, o perigo já passou. está tudo bem.
você pode me explicar o que aconteceu? o que é isso? tem alguém te seguindo?
você quer mesmo saber?

na verdade, eu já não estou mais tão interessado no ocorrido. ela é uma mulher bonita e eu quero dormir com ela. tento parecer interessante e perigoso também.

me conta.
eu não vou te falar o meu nome, mas no meu trabalho eu sou conhecida como Filó. meus clientes são todos homens importantes e com dinheiro, porque eu custo muito caro. não faço festas, não atendo mais de um cliente por noite, não vou na residência nem em motel. e recuso cliente. muitos. pra deitar comigo tem que ter algo específico na voz. na hora que o homem fala a primeira palavra pelo telefone, eu já sei. acaba que eu só atendo os muito poderosos. e eles sempre voltam. eles gostam de me ouvir gemer, eu acho. eu faço que gozo como se estivesse rezando uma ave-maria.

acontece que um homem chamado carlos maciel, figura importante da política, tenho certeza que você já ouviu dele nos jornais, é um cliente meu. toda semana ele me fode. já faz quase um ano. ele é um desses figurões da igreja evangélica, então fica louco com os meus gemidos. me manda presente, paga viagens. eu acho até que ele está apaixonado. ele mesmo me disse isso há algum tempo. eu não digo nada, eu só gemo. digo oh. ah. nem deus eu digo. ele é gentil comigo, fala pouco. tem uma pica fina e em ése. e é só eu sentar em cima dele e juntar as mãozinhas assim, como quem reza, que ele goza na hora.

não sei se você acompanha o noticiário, mas com as eleições surgiu uma rivalidade muito grande entre o carlos maciel, que está se candidatando para prefeito agora e o candidato de um outro partido, olavo santos cordeiro.

oficialmente, esse olavo santos tem críticas à postura da igreja evangélica quanto a uma série de assuntos. extra-oficialmente, o partido do olavo, que contribui regularmente com doações à igreja, em troca de contratos para a construtora de alguns de seus membros, está preocupado com uma manobra política recente dos evangélicos: liderados por carlos, eles denunciaram em seu canal de tv que a oposição estaria querendo corromper a igreja evangélica com subornos. isso afetou em muito as chances de olavo nessa eleição. ele não está nem cotado para o segundo turno, não sei se você sabe.

o meu serviço é muito discreto, não anuncio nem ofereço diretamente. não aceito recomendações. mesmo assim, sou conhecida, a Filó, Filomena. de alguma forma, o olavo santos cordeiro descobriu não só que seu inimigo dormia comigo, mas que ele gostava muito.

semana passada, ouvi uma voz no telefone que me deixou insegura. fiquei sem saber se se aceitava o cliente ou não. acabou que aceitei. à noite, quando ele chegou, percebi que tinha cometido um grande erro.

quando eu abri a porta, um homem magro e alto sorriu pra mim. eu sabia não se tratar do dono da voz no telefone. eu percebi que algo estava muito errado. ele me segurou pelo braço, ainda sorrindo, e me conduziu de volta para a sala. me explicou que trabalhava para um homem importante e perguntou sobre o carlos, sobre quando que ele vinha. disse que nós dois íamos fazer uma surpresa para ele. falou tudo isso com um sorriso tão tranqüilo que eu senti que ia desmaiar.

não desmaiei. pelos próximos quatro dias ele me torturou e me comeu. me deixou sem comer. apagou os cigarros nas minhas pernas. falou que ia arrancar as minhas unhas com um alicate se eu não fizesse o carlos maciel aparecer lá.

eu sabia que se eu ligasse para ele, ele desconfiaria. tentei explicar. o carlos normalmente me ligava às terças, pela tarde, para confirmar o encontro no dia seguinte, e ainda era sexta feira.

ele me manteve assim até domingo. hoje.

eu tentei escapar todas as noites, mas tinha um segurança, um capanga, e ele vigiava o apartamento, dava para ver pela janela do quarto. a porta estava trancada também, e a chave no bolso do cara, que sorria.

pois esse homem alto e magro, ele sorria o tempo todo. quando eu tentei fugir da primeira vez, ele me puxou pelo cabelo para a cozinha e, sem a menor pressa, me manteve deitada no chão, com seu pé na minha garganta, enquanto fervia uma panela de água. depois de fervido, ele deixou um filete de líquido cair lentamente em mim e queimar a minha barriga e os meus peitos. eu te mostro as marcas. meu corpo está cheio de marcas.

da segunda vez que tentei escapar, eu achei que ele estava dormindo e tentei abrir a janela. ele só teve que me chamar. Filó. e eu congelei. ele me deitou de volta na cama, me amarrou, e arrancou um pedaço da minha coxa, com a boca. ele me mordeu. a dor foi gritante, mas eu não consegui gritar. só consegui rezar uma ave-maria. torcer para ele ir embora ou para eu morrer logo.

hoje eu matei ele. ele ficou na minha frente e me obrigou a chupar a sua pica. eu peguei a arma dele e dei um tiro. achei a chave no seu bolso, me disfarcei e saí. saí do prédio pela janela do quarto do porteiro. já estava escuro, mas o cara que estava vigiando me viu.

ela olha em volta, furtivamente.

não sei. acho que despistei ele. com a sua ajuda.
caramba.

eu não sei o que falar. não acredito em uma palavra do que essa mulher acabou de me dizer. chego a minha cadeira mais perto da dela e coloco a mão na sua coxa. ela se ajeita na cadeira. percebo que seu sobretudo está manchado, possivelmente de sangue.

meu deus. você está muito machucada. vou te levar no hospital.
não! é o primeiro lugar que eles vão procurar. preciso usar um telefone. preciso ligar para o carlos.
eu moro aqui na esquina. vem comigo então. você pode ligar de lá e aí a gente faz os curativos.
tá bem.

a visão das suas pernas longas, dos seus pés descalços, me enche de tesão. deixo o dinheiro na mesa e tomo um último gole de cerveja. não me faz bem. filó se levanta devagar e coloca os óculos escuros. agora percebo como seus cabelos estão encardidos.

atravessamos a rua e subimos para o meu apartamento. o entusiasmo de estar levando uma mulher tão linda para a minha casa, mesmo nessas circunstâncias, me deixa alegre. ainda no elevador percebo que um leve sorriso se forma no meu rosto.

entramos e eu ligo o chuveiro. separo uma toalha e a ajudo a tirar a roupa. seu corpo está cheio de hematomas e pequenos cortes. na coxa, uma mancha enorme, com uma ferida ainda aberta. mesmo mutilada assim, ela é divina.

ela entra no banho e deixa a cortina aberta. eu abro o armário do banheiro e faço os preparativos, pegando os remédios. quando fecho a porta espelhada, enxergo o meu rosto refletido. atrás de mim, enxergo também o momento em que filó estremece, reconhecendo na minha estranha boca aquele sorriso familiar.

a porta está trancada.

0 comentários:

Post a Comment