10.10.08

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Para Clarke e Asimov


Eu estou no laboratório da Universidade. Sou estrangeiro e saí do meu país para poder prosseguir com minha pesquisa. Lá, na minha terra natal, alguns dos experimentos que tenho de realizar para comprovar as minhas hipóteses são proibidos. Aqui não.

Cheguei cedo ao laboratório. Na falta de estímulo para socializar com os outros pesquisadores, eu acredito que o tempo que passo sozinho antes de todo mundo chegar pode ser deduzido no final do dia, quando se formam algumas rodas de conversa na frente do prédio e todos saem para tomar uma cerveja.

São onze e meia da manhã e o dia lá fora parece chuvoso. O nosso laboratório é no subsolo do departamento de física experimental, do qual sou o coordenador internacional. Não temos janelas e minha suspeita de mal tempo é baseada somente no barulho distante e repetido de uma gota no ar condicionado da ante-sala.

Mary, minha assistente, termina os últimos preparos.

No meu país as coisas eram muito diferentes. Extra-oficialmente, nós chegamos a fazer alguns dos testes. Num mendigo. Achei ele do lado de fora do prédio da minha ex-mulher. Ele fora atropelado ou apanhara de alguém. Eu o levei para o nosso laboratório - improvisado numa ala abandonada do prédio de zoologia - e chamei o resto da equipe. Antes mesmo do sol subir nós já sabíamos que era verdade. Não havia atividade cerebral o suficiente para verificarmos com total certeza, mas, ainda assim, nosso trabalho de quase uma década se mostrava confirmado.

Pouco tempo depois me mudei para cá. Eu sabia que agora era só uma questão de tempo.

Mary já realizou a primeira incisão e está terminando de serrar o osso frontal, deixando exposto o cérebro do homem. A precisão insuperável do trabalho de Marianne Fiddlesworth me enche não só de segurança frente aos desafios desse procedimento, mas também não me deixa esquecer de porque traio minha esposa duas vezes por semana com essa mulher extremamente habilidosa com as mãos.

O próximo passo é realizado por mim e mais um especialista. Cada um aparafusa um parafuso de titânio, oco, atravessando a área posterior e a anterior dos lobos parietais, alojando-se na área de Wernicke e na de Broca - convenientemente.

Por dentro dos parafusos, fazemos uma eletroforese em gel usando um composto desenvolvido por mim, feito a base de agarose e TBE. A diferença - e nisso reside boa parte de meu atual renome - foi ter misturado um amido retirado da mandioca à já conhecida solução, que hoje leva o meu nome, antes de fundir e adicionar o brometo de etídio. Sem este gel seria impossível a coleta de dados.

Em seguida, ligamos aos parafusos os computadores que fazem a leitura e interpretação dos impulsos recebidos. A minúscula corrente que passa pelos conduítes já é suficiente para que o homem comece a fazer movimentos involuntários, abrindo e fechando os olhos, tremendo levemente e forçando as mãos contra a mesa de cirurgia.

A função dos computadores é receber os impulsos elétricos enviados através dos parafusos e organizá-los segundo a interface linguística desenvolvida por Voight-Kampf. Esse sistema não só lhe rendeu o prêmio Nobel, como uma grande soma de dinheiro ao vender a tecnologia para o exército.

Tão imprescindível quanto esse avançadíssimo sistema de coleta e interpretação de impulsos nervosos é o composto gelatinoso que vai dentro dos parafusos. Foi o meu primeiro grande avanço no campo da tecnologia neuro-biológica. Por ser excessivamente sensível as menores variações, é o conduíte perfeito para nossos experimentos.

Acontece que meu segundo grande passo foi a descoberta de que as informações relacionadas à linguagem e ao pensamento articulado não são fruto de sinapses e áreas do cérebro especificas, mas de um resíduo, um ruído elétrico insignificante, que fica em surdina em toda mensagem do sistema nervoso, mais facilmente identificável nas áreas de Broca e Wernicke. Espero concorrer ao Nobel este ano.

Com a possibilidade de medir os impulsos elétricos com tamanha precisão, podemos isolar essas micro-oscilações e então interpretar os dados através dos computadores de Voight-Kampf.

Tudo está instalado corretamente e agora podemos prosseguir.

Peço para Mary que aumente a corrente. Rapidamente os primeiros resultados aparecem. O sujeito começa a falar, mesmo de boca fechada. As outras contrações e espasmos param. Quando diminuímos a intensidade, a fala pára.

Programamos os computadores para começar a traduzir. Agora, quando aumentamos a intensidade novamente, algumas letras desconexas começam a aparecer no monitor. Essas palavras inexistentes começam a dar lugar para expressões com sentido e, depois, frases completas.

Num gesto descuidado e eufórico, me debruço sobre seu corpo e separo os lábios do voluntário - assumo que tenha sido voluntário, não participei do processo de seleção da cobaia - para poder entender o que ele diz. Aproximo meu ouvido.

“eu nunca fui a praia”
“a areia quente deve machucar os pés”
“mas você pode descansar os pés na água do mar”

O grito agudo e juvenil de Mary e dos assistentes me desconcentra. Desvio minha atenção de volta para o monitor. Lá está escrito:

reth ommytd dsdh asfdsg
fjas as assas isi asa au
aumfau feijão feijão eija reija
reija giiiuuu eu nunca
eu nunca fui a praia
a areia quente deve machucar os pés
mas você pode descansar os pés na água do mar

Mal posso conter a euforia. Mas o momento é crítico. Para a confirmação final, precisamos que ele esteja desperto e consciente. Com uma pressa cortante, peço concentração aos meus colegas e mando que apliquem o coquetel para acordar o homem.

Os cinco minutos que se seguem são de grande nervosismo e apreensão. Observo o homem acordando, confuso e anestesiado, tentando compreender aonde está. Não me aproximo, enquanto Mary explica de forma eufemista o que está acontecendo. Seu sorriso desajeitado e sua escolha de palavras - como se falasse com um retardado - me enchem de ciúme. Aquela puta está dando em cima do retardado, na minha frente. Observo com certa satisfação como o homem responde literalmente como um retardado, fazendo pequenos movimentos com a cabeça - os únicos que consegue - e sorrindo e babando como um cachorro. Deixo escapar uma curta risada. Ninguém mais parece achar graça. O homem volta a falar sem controle - o que parece ser bastante angustiante para ele, que não consegue controlar sua própria boca.

O Voight-Kampf começa a trabalhar freneticamente.

“Quando eu caminhar na areia vou tomar cuidado com os cacos de vidro”
Quando eu caminhar na areia vou tomar cuidado com os cacos de vidro.
“Se você cortar o pé na areia, pode lavar o sangue na água do mar”
Se você cortar o pé na areia, pode lavar o sangue na água do mar.
“Quero enfiar meu pau na areia da praia. Num castelo de areia”
Quero enfiar meu pau na areia da praia. Num castelo de areia.
Meu deus, o que está acontecendo?
Aquela puta está dando em cima do retardado, na minha frente.
Puta merda, o que é isso?
Será que o doutor sabe o que está havendo?
Caralho.

Meus joelhos tremem e eu quase desmaio. O homem não está falando. No monitor, entre duas frases que ninguém disse, está escrito:

Aquela puta está dando em cima do retardado, na minha frente.

Eu pensei isso.

Em seguida, no monitor - que continua desfilando frases desconexas - aparece:

Pobre coitado. Ele vai morrer com certeza.
Está na hora de aplicar a segunda dose...acho.
Eu pensei isso.
O que está acontecendo, meu deus. Esse monitor....
Meu deus, o monitor...

Minha pressão baixa vertiginosamente. Me apoio na mesa.

“Meu deus”
Meu deus.
“Doutor, você está bem?”
Doutor, você está bem?
“Estou, Mary. Estou bem.”
Estou, Mary. Estou bem.

Mary olha para o monitor e arregala os olhos, pálida. Os assistentes estão em torno do homem, tentando entender porque ele não está falando. Eu me aproximo da tela do Voight-Kampf.

Meu deus. Está lendo tudo.
Meu deus. Está lendo tudo.

Me volto para Mary - por um segundo fico preocupado pensando se ela tem idéia do que está acontecendo, e se entendeu que eu de fato pensei aquilo sobre o retardado.

Será que ela tem idéia do que está acontencendo? A coisa do retardado...
Será que ela tem idéia do que está acontencendo? A coisa do retardado...

Volto a olhar o monitor e tomo um susto com a confirmação que meu pensamento está de fato escrito na tela. O meu e o de todos os presentes.

O fluxo de frases começa a aumentar. Quanto mais eu tento entender o que se passa, mais texto passa na tela do computador. Os assistentes, em pânico, começam a falar sozinhos. O fluxo cresce exponencialmente. O computador começa a apitar e, de tão rápido, escuto o processador girando dentro da máquina. Não é mais possível ler o que acontece na tela, de tão rápido que se escrevem as frases. Me parece que tanta informação assim não pode vir somente desta sala.

O homem entra em choque. Mary começa a chorar. O apito da máquina fica insuportável. Em um movimento explosivo, o homem começa a se debater, espumando e sangrando tanto pela boca como pelos ouvidos, olhos e nariz. Um cheiro forte de queimado sai do computador, mas ele não pára de acelerar. Na tela, passam tão rápido as palavras que o texto mais parece uma interferência eletromagnética, fazendo o monitor pulsar.

Os dois assistentes saem da sala para chamar ajuda, mas eu sei que ninguém vai vir. Já contávamos com a morte do cobaia, na verdade.

O apito se torna um ruído agudo e contínuo e diminui de intensidade, ficando quase mascarado pelo apitar dos outros equipamentos. Tecnicamente, esse homem está morto.

Mary está no chão, paralisada.

Tento encostar no homem, mas, quando o faço, o barulho do Voight-Kampf se torna ensurdecedor novamente, como se criássemos uma microfonia entre nós dois. Tenho a intuição de que a máquina colapsa, pois se entro em contato direto com o sujeito, os dados se infinitizam, num pleonasmo ad eternum. O mesmo ocorre se tento desligar a máquina.

O ruído volta a uma intensidade suportável. Escuto agora o choro desesperado de Mary. Pego ela pelo braço e saímos dali.

Subimos as escadas de incêndio e sentamos na calçada. Já está escuro. Um carro preto pára perto da entrada do prédio e três oficiais do governo entram pela porta que acabamos de sair. Ao fundo, escuto o barulho abafado dos computadores.

Passo o braço em torno de Mary - Marianne Fiddlesworth. Pobrezinha, está em choque. Eu também estou confuso. Não sei medir a extensão do que acaba de acontecer.

Encosto meu rosto nos seus cabelos loiros e respiro profundamente. Estranho. Não sinto cheiro algum. No céu, as estrelas começam a se apagar, uma a uma.

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