27.10.08

u)

Estou deitado na cama, dormindo. Na hora grave, um sol eclipsado, cego, mancha o azul inexistente do céu com violeta e amarelo. Através da cortina entreaberta entra essa luz oscilante, ruidosa como o ranger de dentes. Meu quarto fica assim suspenso num outro tempo, ditado pela eternidade sinuosa da hora grave. Aqui, o tempo sussurra sem som: Estou aqui, eu me alcancei.

Nesse lugar, em que o horror do instante ganha corpo e tudo está morto e vivo ao mesmo tempo, eu estou deitado na cama. A boca, ouvidos e olhos, inúteis, coçam como se alguém os desenhasse em mim e eu me reconheço somente como o peso no colchão. Tudo o mais coincide comigo ou não, descansando onde estou ou pelo resto do quarto, que também coça, estaticamente.

Bruscamente, um ruído que eu não escutava, mas sabia estar lá, se transforma em passos pela minha casa. Escuto as portas abrindo e fechando e passos de quatro ou cinco pessoas. Essas pessoas conversam e sussurram entre si, numa língua que eu não conheço. São ladrões. Estão procurando alguma coisa pela casa.

Eu já não podia me mexer antes, mas agora que percebo não poder, fico aterrorizado. Se eles entrarem no quarto, eu não vou poder me defender. A luz que entra pela janela é um lusco-fusco invertido, uma meia-luz que não pertence a nenhuma das metades do dia, e, de repente, me dou conta de que eu posso ter sido condenado a estar aqui e agora, para sempre.

Nesse momento, escuto passos se aproximando. Do canto dos olhos eu vejo um braço que entra pela porta, mas não consigo ver a quem pertence. A mão bate três vezes na parede, chamando minha atenção, e em seguida faz um sinal de positivo.

xxx

Acordo, como quem desmaia. Está bem cedo ainda. Moro em Londres e o dia nublado e chuvoso absorve boa parte da luminosidade. Aqui os dias são uma longa hora e as sombras são nuanças. Sento na cama e deixo o sono escorrer.

Subitamente, congelo, paralisado de medo. Meu silêncio casual e morno é cortado pela lâmina mortal de um outro silêncio, grave e desumano, em que eu escuto, incrédulo, a ausência daqueles passos e sussurros.

0 comentários:

Post a Comment