
“Tendo o Nada partido, resta o castelo da pureza”
0. Primeiro, nada acontecia.
0.1 Quando aconteceu, alguns estavam em casa, já dormindo. Outros dançavam em discotecas - o som alto e grave comprimindo os corpos para o centro da pista. Havia muitos andando e muitos mais nos carros, no trânsito. Alguns dos que antes dançavam, estavam agora nos bares, e o contrário também era verdadeiro. Muitos estavam ao telefone e muitos mais vendo televisão. Poucos olhavam para o céu, e menos ainda para o chão. Alguns falavam e outros escutavam, mas não necessariamente as mesmas coisas. Quase ninguém morria doente, assassinado ou em acidentes naquele momento. E era velado a todos o que aconteceria, e que aconteceu, quando aconteceu.
1. Depois, não sobrou quase nada.
1.1 Quando a água desceu, quando o fogo sumiu, quando a terra cedeu e o ar tomou o vazio, as cidades apareceram novamente. Mas o que apareceu era o semblante da cidade, o semblante no lugar do que antes ali havia. Ao invés de um prédio, somente as vigas necessárias para sustentar ali como lugar do prédio. E tudo era a sombra do que era antes, sem ser o que antes se era. Só a sobra e a sombra. Algumas ruínas e poucos sobreviventes.
1.2 Depois: num certo lugar: um palco vazio feito de terra e casas destruídas.
2. Não se sabe a história de R.
2.1 R. vem caminhando, cambaleante, por entre os escombros. Ele está com sede e muito cansado. Seu cansaço vence lentamente suas pernas e R. vai ao chão, desmaiado.
2.2 Enquanto R. está caído no chão, X. se aproxima e aponta uma arma na sua cara, para ter certeza de que não se trata de uma ameaça. R. permanece no chão, desmaiado. X. então percebe que não se trata de uma ameaça.
2.3 X. carrega R. para a sua casa, deixando que R. descanse e se alimente.
2.3.1 A casa de X. é um casebre desmoronado, com uma cama e algumas caixas de comida estocadas.
3. R. acorda e descobre ter sido socorrido por X.
3.1 X. oferece comida e abrigo para R., desde que, em troca, R. trabalhe para X., catando e organizando o lixo. R. aceita.
3.2 R. e X. se tornam amigos e conversam sobre antes durante um jantar.
3.2.1 R. conta que trabalhava num cinema, que estava na sala de projeção quando tudo aconteceu. Ele teve a impressão de que desmaiava e que o seu desmaio distorcia a sala de projeção, como se ele estivesse nauseado e o mundo se curvasse frente ao seu enjôo. Primeiro a causa no corpo, depois o mundo ruindo. Quando voltou a si, estava preso entre ferragens e não havia mais cinema. Estava a céu aberto e o azul claro do céu vazava sobre a ruína do teatro, mantendo a morte separada dos corpos espalhados nas pedras. Tudo era silencioso e claro.
3.2.2 X. morava no mesmo casebre em que agora mora. Antes chamava de casebre, como agora também chama. Catava comida do lixo e dormia com frio, como ainda faz, mesmo depois. Ele estava dormindo quando veio, e acordou quando tudo estava ao chão.
3.2.2.1 Tivesse ele bebido um pouco mais naquela noite, teria sido uma noite qualquer.
3.2.2.2 Ele ainda chama de lixo o que agora leva o nome de resto.
4. R. trabalha para X., catando e organizando o lixo, procurando algo que ainda tenha uso possível.
4.1 Um dia, trabalhando, R. encontra algo de útil entre os restos de uma casa. Satisfeito, ele levanta e olha em volta. O céu está azul e o mundo, silencioso. Por um segundo, R. está feliz.
5. R. está trabalhando para X., catando e organizando o lixo, quando vê J., caminhando entre os restos.
5.0.1 J. caminha entre os restos, com uma mochila nas costas.
5.1 J. se aproxima de R., que está surpreso por encontrar alguém que não X. Os dois conversam e J. explica que está indo para o Espírito Santo. R. reclama e diz que existem poucas chances de existirem outros sobreviventes, mas J. argumenta que isso não vem ao caso.
5.1.1 A posição de R. é: Por que se arriscar num mundo que agora é muito mais perigoso e difícil, quando se pode aproveitar a sorte de ter encontrado abrigo, o que é algo bastante improvável.
5.1.1.1 Sua posição é: Algo aconteceu, mas ainda há como viver como se não tivesse acontecido.
5.1.2 A posição de J. é: É um momento de entusiasmo na História e ela tem vontade de se aventurar.
5.1.2.1 Sua posição é: Algo aconteceu e há mais risco em viver a vida como se o Novo não existisse, do que assumir o risco de estar a altura do que o Novo é.
5.2 Os dois caminham juntos e se sentam entre os destroços. R. pergunta para J. sobre a sua vida. Ela conta que era cantora de apoio num grupo que se apresentava em bares e pequenas casas de show. Na Hora, ela estava na praia com as amigas, comemorando o aniversário de uma delas. Estavam sentadas na areia, conversando. Logo depois, ela acordou dentro do mar, sem saber aonde era a costa. Atordoada, deixou-se afundar por um minuto, mas percebeu que ainda tinha forças no corpo. Em seguida, olhou em volta e encontrou a cidade. Uma mancha escura, porém opaca, sob o escuro transparente da noite. Enquanto nadava de volta, teve dois pensamentos:
5.2.1 Não estou nadando para a mesma cidade.
5.2.2 Eu estava pronta para isso, e não sabia.
5.3 R. pede então que J. cante uma música.
5.3.1 Ela canta:
Eu carrego o meu corpo
pra onde ele me levar
Eu sou só na minha voz
É na voz que eu faço lar
Quando você me beijou
eu pensei que fosse morrer
Não sabia que duas bocas podiam
Fazer música sem se mexer.
Cantar sem fazer som:
o amor me faz dizer sim com o corpo.
E declarar o amor é um dom:
é fazer da tormenta do mar, um porto.
5.4 J. pergunta se R. pode arranjar alguma comida para ela levar no resto da viagem. R. diz que consegue alguma coisa com X., seu amigo, com quem mora ali por perto. Por um momento, existe um olhar entre os dois. R. sorri. J. responde, divertida com a própria aspereza, que mesmo que R. fosse o último homem no mundo, eles não vão transar. R. rumina a ironia da situação, imaginando se deveria contar X. como um homem.
6. R. volta para o casebre e pega comida para J. X. vê o que R. está fazendo e pergunta o que está acontecendo.
6.1 R. explica que está pegando comida para uma mulher que conheceu, e que os dois vão para o Espírito Santo. X. diz que R. não pode ir, porque R. deve demais a X., pelo abrigo e pela comida - afinal ele é preguiçoso e seu trabalho não equivale ao que ele recebe em troca. R. fica surpreso com X. e não leva a sério o que ele diz.
6.2 X. aponta uma arma para R. e manda que ele não vá embora. Apavorado, R. diz que não irá, que só vai fazer um pequeno lanche lá fora.
7. R. e J. comem juntos, sentados entre ruínas. J. fala que a comida não é suficiente para a viagem, e R. diz que vai conseguir mais, e que ele quer ir com ela. J. diz que ela vai partir no dia seguinte de manhã e que os dois poderiam se encontrar bem cedo ali mesmo. Os dois terminam de comer em silêncio.
8. R. volta para o casebre.
8.1 X. já está dormindo. R. hesita por um momento, antes de pegar a arma dentro de um caixote e matar X.
8.2 X. está morto. R. se senta no chão e entende que o casebre agora é seu.
9. R. encontra J. no lugar combinado, carregando alguns pacotes de comida.
9.1 Ele entrega a comida e diz que não vai com ela, porque ele tem casa e comida ali e não quer arriscar perder tudo. Além do que, X. não está mais lá e ele é dono do lugar agora. R. pergunta se J. não quer ficar com ele., mas J. diz que não, ela vai seguir viagem.
9.1.1 R. fica desapontado, pois esperava que sua nova condição fosse ser razão suficiente para que J. ficasse com ele, assim como é razão suficiente para que ele fique.
9.2 J. e R. se despedem e J. vai embora, com uma tristeza no corpo, que caminha devagar pela paisagem, e uma alegria violenta e descabida, sempre um passo a sua frente.
10. O tempo passa e R. é dono de seu casebre.
10.01 Agora, R. chama o casebre de casa.
10.1 R. está trabalhando, catando coisas do lixo. Ele volta para casa e senta do lado de fora para comer. O céu continua da mesma cor, o mesmo azul.
10.1.1 Mas está tudo mais silencioso que o normal.
10.2 R. termina de almoçar e se levanta para caminhar.
10.2.1 R. caminha para longe e, sob a égide insuspeita de um gesto sem sombra, nunca mais voltará.

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