23.2.09

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Eu a imagino deitada, dormindo. Dormindo porque não morta. Dormindo porque imaginá-la fora da aridez do sono é demais. Já existe um excesso de fé na idéia de que poderia estar ali, serena, eterna. Um excesso de fé na imagem. Eu penso que ela está ali como uma estátua de areia - menos: uma forma na areia. Um acidente qualquer na paisagem.

II
Quando eu era mais novo, meu pai me levou pra viajar. Lá tudo era ralo e o ocre oco da terra me incomodava a vista. Nunca entendi como pode haver excesso de nada, mas aquele terreno só horizonte, só espera, não era nada - só ausência e poeira presa na vegetação baixa. Eu tinha medo. Que animais se esconderiam na secura abominável dessas bandas? De onde viria o cheiro de água que o azul do céu sussurrava nos ouvidos? A fome. A falta.

III
Ela estaria ali deitada, sonhando para além do meu sonho - porque o que eu imagino não é ela: é o deserto, é o mal. Não o seu corpo jovem deitado, descansando numa tarde quente no Rio, mas a impossibilidade de ela estar lá, sofrível, no mesmo mundo que o Pão de Açúcar e os Arcos da Lapa.

E não era mesmo o mesmo mundo: Em um evangelho está escrito que o diabo está nos detalhes. Num outro que é deus. O que eu sei é que está nos detalhes. Na curva do morro, no verde gasto dos caminhos, na pupila dilatada do escuro. O fogo de trás da cortina. É isso: ali a cortina está aberta e você olha pro fogo.

IV
Mas a própria lembrança dessa violência, dessa ruína de guerra que se demora infinita nação a dentro, é por si só outra ruína - porque as palavras são tanto, e portanto, tão pouco. A memória é uma palavra. A mulher deitada é uma palavra.

V
As cores sem nome de onde pululam as coisas: Se estivesse acordada, o que diria? Que animais se esconderiam na secura abominável do seu sono? De onde exalaria o cheiro de mar que me chega aos olhos e eu choro? 

Nela há de estar marcada a cartografia do meu desejo. Resta saber para onde é que me guia uma terra sem mapas. Estariam os caminhos marcados num idioma outro que o meu - seria a própria paisagem o código e a senha?

VI
Imagino o ocaso. Acompanho com a cabeça o sol. Deito meu rosto na terra, como ele. Tudo escurece - e da terra fumegante, pode-se ouvir o sussurro:

“o sertão vai virar mar. o sertão vai virar mar. o ser tão vai vir a amar.”

E a cama, estática, permanece estática. Um animal que dorme protegido sob a respiração mortífera do fantasma, esse corpo só nuvem e temor.

VII
Esse sono todo é meu, eu sei. Eu, dos olhos encerados, debaixo da macieira do jardim. Eu, que imagino primeiro os olhos, pra poder te ver. Eu que rezo: Que a definição do teu corpo seja ser tão e tanto, que o pouco que és é a vertigem, a parte.

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