22.4.10

z)




(Esse texto está incluído na série de contos ficcionais porque, mesmo sendo um texto crítico, o país de que ele fala só pode ser uma ficção.)





Sarney e a lógica da chaleira


Em 1925, Freud publicou um texto de grande importância para a formação da teoria psicanalítica, "A Denegação" ( Die Verneinung, em alemão). O texto freudiano sobre a Verneinung introduz à consideração teórica uma outra forma da negação: um ‘não’ que supõe uma afirmação. 

Neste caso, a denegação seria uma forma de trazer à tona o que está escondido, inconsciente, sem que seja necessário a aceitação e consciência do que não se sabe. 

Essa negação que implica uma afirmação é apresentada por Freud mais tarde numa anedota sobre uma mulher que nega de três maneiras ter quebrado uma chaleira emprestada:

ela diz:
- “ a chaleira já estava quebrada quando eu peguei”
- “ eu não peguei a chaleira emprestada”
- “ a chaleira não está quebrada”

A soma das três negações super-impostas negam não só sua culpa no caso da chaleira quebrada, como obviamente também negam umas às outras, já que o conjunto das três rompe com os princípios mais básicos da lógica aristotélica (a chaleira não pode ‘já estar quebrada quando foi emprestada’ e ‘não estar quebrada’ ao mesmo tempo, por exemplo).

A combinação dessas três negações aponta para uma afirmação, justamente aquilo que é objetivamente negado, mas que é implicado afirmativamente no enunciado: uma chaleira foi devolvida quebrada.

Assim, carregada pela denegação - no rastro da rasura, como Jacques Lacan viria muito mais tarde a descrever - encontra-se a presença indestrutível de um sim muito mais profundo: um ‘sim’ que, para além da imaginária idéia de concordância, encontra no peso da sua negação a própria consistência do termo negado.

Freud escreve que “negar algo em um julgamento é, no fundo, dizer: ‘Isto é algo que eu preferira reprimir’”. Em termos de sintaxe isso é bastante perceptível. Peguemos um dos dez mandamentos: “Não matarás”. A palavra ‘não’ não substitui a palavra “matarás” - ao contrário: sem a palavra ‘não’, não se escreveria a palavra ‘matarás’. A própria negação do pecado o institui, digamos assim.

Essa relação dialética e estrutural entre a constituição do que é negado e sua negação nos permite entender mecanismos que se estendem para além do indivíduo e sua psiquê.

Nos últimos meses, nas diversas vezes em que o presidente do Senado, José Sarney, subiu ao palanque para se defender das acusações feitas a ele a respeito de seu envolvimento em esquemas de contratação de familiares para cargos públicos, seu envolvimento em atos de nomeação e reajuste salarial realizados de forma secreta durante a sua presidência, formou-se lentamente um quadro bastante similar ao do exemplo citado por Freud.

No curso de um pouco mais de um mês, José Sarney respondeu da seguinte maneira às acusações:

ele diz:
- “os atos secretos já estavam instituídos quando eu cheguei”
- “eu não sou responsável pela cozinha do Senado”
- “as acusações são todas falsas”

Assim como no exemplo freudiano, encontramos aqui a estrutura:
- x já estava assim antes de mim
- eu não peguei x
- x não está quebrado.

É seguindo a linha de meu mestre, o filósofo sloveno Slavoj Žižek, que coloco essa homologia entre a situação da chaleira e a defesa de Sarney. Žižek vem há muito tempo analisando e escrevendo sobre política e filosofia levando em conta a hipótese psicanalítica de que há inconsciente.

Escrevendo à respeito do posicionamento americano em relação à guerra do Iraque, ele diz:

“Em Março de 2003, Rumsfeld praticou um pouco de filosofia amadora a respeito da relação entre o conhecido e o desconhecido: ‘Existem conhecimentos conhecidos. Essas são as coisas que nós sabemos que sabemos. Existem desconhecimentos conhecidos. Isso é, existem coisas que nós sabemos que não sabemos. Mas também existem desconhecimentos desconhecidos. Existem coisas que nós não sabemos que não sabemos.’ O que ele esqueceu de adicionar foi o quarto e crucial termo: os “conhecimentos desconhecidos”, as coisas que nós não sabemos que sabemos - que é, precisamente, o inconsciente freudiano, o ‘conhecimento que não conhece a si mesmo’, como Lacan costumava dizer.

Se Rumsfeld pensa que os maiores perigos no confronto com o Iraque foram os ‘desconhecimentos desconhecidos’, isso é, as ameaças de Saddam cuja natureza nós não podemos nem mesmo suspeitar, então o escândalo [das torturas aplicadas pelos americanos] em Abu Ghraib mostra que os maiores perigos residem nos ‘conhecimentos desconhecidos’ - as crenças denegadas [disavowed beliefs], suposições e práticas obscenas que nós fingimos não ter conhecimento, mesmo sendo o que forma o pano de fundo dos nossos valores públicos.”
(Žižek, S. http://www.lacan.com/Žižekrumsfeld.htm )


Seguindo o pensamento de Freud - mas também o de Marx, com seu conceito de ideologia - Žižek posiciona o inconsciente entre o público e o privado, deixando em aberto para nós a possibilidade de enxergar aqui em nossa própria problemática esse ‘saber que não sabe a si mesmo’, mas que nem por isso deixa de organizar tanto o campo social quanto o individual.

José Sarney - num país como o Brasil, onde as estatísticas encontram um familiarmente estranho Iraque entranhado por dentro do seu próprio território - poderia certamente fazer às vezes do nosso próprio Donald Rumsfeld.

Mas enquanto Rumsfeld esqueceu-se de uma permuta dos termos sobre o qual filosofava, com Sarney o caso é o contrário: Sarney não deixou de falar - falou tanto que voltou a deixar claro a coisa mesma sobre a qual queria calar.

Na verdade, Sarney foi além da chaleira. Numa proposição adicional - que pode ser retirada da sua recente (21/08/09 ) entrevista ao canal televisivo Globo News - após se defender da acusação de que uma familiar sua teria sido nomeada para um cargo parlamentar, dizendo que ela foi sim nomeada - deixando o ato de nepotismo evidente -, mas que não chegou a assumir o cargo, ele completou:

“como se pode acusar uma coisa que não existe?”

É importante aqui relacionar esse ‘não existe’ com a idéia de denegação. Para além de uma simples denegação, onde as negativas combinadas apontam para a afirmação daquilo que se quer negar, essa quarta negação apresentada por Sarney - não tanto uma negação dos predicados da chaleira, mas dá própria existência da chaleira - aponta para uma estrutura um pouco diferente.

Novamente - reforçando tanto a comparação com Rumsfeld quanto a dívida à Žižek - gostaria de retornar aos comentários do filósofo a respeito de outro aspecto da ‘guerra ao terror’: o comentário do governo americano confirmando as suspeitas de tortura em Guantanamo publicamente.

Respondendo às fotos e vídeos trazidos ao público que mostravam soldados americanos humilhando e torturando prisioneiros, o governo respondeu em diversas fontes com um discurso afirmativo - Sim, a tortura acontece - Seguido por uma série de modalidades de argumentação liberal para criar uma fraseologia democrática por cima dessa primeira - e obscena - afirmação: A tortura acontece, mas só com aqueles ‘que foram perdidos pelas bombas’, ou argumentando ‘que é melhor pelo menos falar a respeito’, etc.

Žižek, que possui um extenso trabalho relacionado ao estudo da ideologia e seus mecanismos de funcionamento, reagiu ao posicionamento americano com a seguinte resposta: Se é só tortura o que se passa, método esse comum e sabido pelo povo desde sempre, por que é que agora estão admitindo?

O filósofo compara essa situação a de um marido que conta para a esposa que está tendo um caso, um affair passageiro. A mulher se indigna: Se é só um caso, porque ele está contando pra ela?

A relação entre as duas situações torna evidente que o ato de tornar público nunca é um ato ‘neutro’, sem investimento. Tornar público implica uma posição diferente de manter algo no terreno da clandestinidade, principalmente para aquilo que habita, por definição, na distância entre a letra da Lei (o que está escrito que devemos fazer) e a realidade (aquele espaço em que o desvio é tolerado, conquanto seu conhecimento não seja direto ou oficial).

Aqui aparece o ‘para além da chaleira’ de Sarney: Esse argumento apresentado na entrevista, admitindo o nepotismo, mas ao mesmo tempo o colocando como desculpável, já que o cargo não foi assumido, demanda um laço perigoso entre o oficial e o oficioso.

Ainda com a chaleira como exemplo, seria com estranheza que se receberia num tribunal o argumento contra ou a favor a existência do objeto: A chaleira já estava quebrada quando eu peguei, eu nem peguei a chaleira emprestada, a chaleira também não estava quebrada e - além do mais - a chaleira não existe.

Mas o importante é que a estranheza não vem do puro absurdo da quarta proposição, mas de como, de alguma forma, ela de fato é o único modo de combinar as três anteriores. Só de uma chaleira que não existe poderia se predicar sem contradição as três outras negações. Mas qual é o status de uma chaleira que não existe, e no entanto é objeto de um julgamento?

O que vem à tona com o argumento de Sarney obviamente não é a negação da existência dos atos secretos, ou das nomeações, mas a negação da diferença entre a esfera oficial e a esfera das relações ilegítimas da política nacional. Na política, coisas que ‘não existem’ podem ter efeitos. E ao propor que as acusações se dirijam a alguma coisa inexistente - e que, no entanto, existam as acusações - Sarney inclui no discurso manifesto a negação daquilo no qual ele se baseia.

Mas nós aprendemos com Freud que tipo de negação é essa.

Negar seu envolvimento com uma rede de corrupção é fazer parte da tradição retórica da política no Brasil, mas negar a rede ela mesma é trazê-la em definitivo para o primeiro plano.

Quando Sarney pergunta como pode alguma coisa que não aconteceu servir de base para acusação, ele está questionando como que ‘aquilo que não acontece’, justamente a base subterrânea da política no país, pôde vazar e ter consequências no registro oficial da lei.

Desde o primeiro discurso de Roberto Jefferson na CPI do Mensalão, quando a abertura para o público da rede de corrupção que envolvia todo o Senado serviu para Jefferson como base de sua defesa, a diferença entre a lei e seu obverso obsceno tem se estreitado.

José Sarney, o presidente do Senado, em seus pronunciamentos recentes, encenou de forma intocável um outro exemplo desta mesma lógica. E essa torção da denegação, essa repetida inclusão pelo avesso da corrupção no discurso político - buscando que a máxima “a corrupção está por toda parte” redima aqueles que a enunciam - desenha um momento de extrema importância para a política nacional.

A talvez nunca antes explicada inclusão do presidente do Senado entre os imortais da Academia Brasileira de Letras pode ter encontrado agora a sua justificativa, pois coube a José Sarney encenar - tanto como um dos autores, quanto como personagem - um sintoma nacional. Ali, sob as palavras do político, o Senado se fez Cenado. E, num país carente de teatro, a cena retornou justamente onde devia.

E neste momento nós temos uma grande oportunidade.

Assim como uma pessoa que é extorquida por um policial tem a oportunidade de experimentar a diferença entre a polícia e a Polícia - sofrendo os abusos causados por um homem que encarna o excesso de autoridade e a falta de remuneração que resta à polícia, instituição que luta para se organizar de acordo com uma idéia, e que exibe constantemente facetas estranhas ou mesmo opostas a ela - nós aqui temos a oportunidade de afirmar a diferença entre a lei e a Lei. Nós temos essa oportunidade justamente por ser esta a crise que atravessamos agora.

Com os desenvolvimentos recentes da política - e a sua recepção pelo país - o que torna-se cada vez mais aparente no discurso político é a grande aceitação de que essa diferença seja colapsada: Que a lei, com seu ranço e buracos - problemas talvez decorridos, como diz Sergio Buarque de Holanda, de se instalar um sistema único à um território tão extenso - tome o lugar da Lei, o ideal vazio, nunca realizado, que serve de farol para qualquer organização.

O que é mais perigoso é que a estratificação dos dois terrenos não tem como função permitir que se discuta e resolva o problema da corrupção. Esse discurso que horizontaliza dos dois registros serve para proteger e resguardar tanto aqueles que se utilizam do espaço entre as duas quanto aqueles que não querem lidar com o problema, pois a existência da corrupção por baixo do registro oficial da política não é a novidade, o que permanece novidade é como os dois sempre se entrelaçaram - e isso agora fica ainda mais oculto.

Na filosofia, na ciência (normalmente associada à religião), na arte e na política, os movimentos contemporâneos de horizontalização, tentativas de se liberar do suporte de uma autoridade externa ao mundo, um Ideal, Causa, Deus etc, trazem consigo esse perigo: a ilusão de que a neutralização, a equivalência ou estratificação dos registros é para todos. Não devemos deixar de nos perguntar: para quem é que é encenada essa equivalência de registros (entre o oficial e o clandestino, no caso)? Pois quanto mais se fala da corrupção, quanto mais vulgar fica o discurso dos nossos políticos, mais profundamente é escondida a conexão entre o poder público e o poder paralelo.

Aliado a esse desenvolvimento no discurso da corrupção - e muito de acordo com a história das últimas décadas do Brasil, que testemunhou o fim dos últimos recantos de produção cultural politizada no país - podemos encontrar a máxima liberal de que com a maturidade se deixa para trás a utopia e aprende-se que o mundo é mais complexo, que devemos aprender que tudo é compromisso. Mas o que se aprendeu em casa, agora mostra suas consequências no Planalto Central.

Hoje, frente ao exercício vazio que é a performance democrática no Brasil, é o momento de constatar que deixar a utopia para trás não é lidar com o mundo de frente e resolver os problemas que se apresentam, mas deixar que o espaço entre a realidade e esse algo mais, a referência vazia do Ideal - que é o que possibilita a emergência de novos valores - se perca.

E quando se fecha esse espaço entre os dois o que se coloca em risco não são só os próximos passos na história do país, mas a própria idéia de nação.

Quando o presidente do Senado sabe ter respaldo político o suficiente para utilizar-se do recurso carrolliano de negar até uma prova concreta, um papel com sua assinatura confirmando seu envolvimento com o caso, o país tem o dever de exigir não o fim da corrupção - pois a relação do brasileiro com a corrupção ainda há de ser encenada em diversos sintomas, tão intrincada parece ser a identidade nacional com a noção de poder paralelo - mas que o desenvolvimento da política no país não seja feito às custas de da própria idéia de Política.

Para tratar de algo eterno - como uma Idéia - talvez tenhamos finalmente feito uso da cadeira de um Imortal: a defesa de José Sarney marca na história do país a emergência de que se retorne àqueles mesmos conceitos que o discurso liberal democrático descartou como antiquados ou radicais, e que agora fazem falta (ou melhor, cuja ausência impede a falta de se fazer, como percebemos, angustiados com a impotência com a que testemunhamos a cena do Senado), tendo a coragem de impor ao Novo o traço irascível não do velho, mas do eterno, que é o lugar da tradição.

E enquanto esse trabalho conceitual não tem lugar - pois não basta eleger uma Idéia, é primeiro necessário descobrir quais idéias nós já elegemos, e talvez não tenhamos a coragem de admitir - é em direção à fineza, humilde arte do gesto vazio, que segura a fresta entre o público e o privado, que devemos nos guiar.

0 comentários:

Post a Comment